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Cegueira em tempos de Crise

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”
(José Saramago, “Ensaio sobre a Cegueira”)

José Rubens Damas Garlipp é Economista, Professor Titular do Instituto de Economia da UFU

Em outra oportunidade observamos que a atual crise é grave e aponta para um verdadeiro déficit civilizatório. Seja nos países desenvolvidos, seja nos que intentam o desenvolvimento, tal gravidade se expressa por meio do esgarçamento do arranjo societário que marcou o segundo Pós-Guerra até os anos 1970, ensaiado como resposta aos entraves à acumulação de capital. Desde então, lá se vão quatro décadas de desintegração dos “padrões” acordados de relacionamento social, de desmantelamento dos mecanismos de sociabilidade e proteção social e de esvaziamento da cidadania, resultado último de uma franca submissão dos governos às políticas liberal-conservadoras, culminando em austeridade fiscal, anunciadas e adotadas como capazes de superar a crise econômica e retomar o crescimento econômico.

Em que pese a incapacidade de as políticas de austeridade cumprirem o prometido, como demonstram as experiências dos países desenvolvidos que as adotaram, aqui seguimos cegos quanto aos seus fracassos e perversos desdobramentos.

Em uma das suas manifestações, a crise brasileira se prolonga por meio da mais grave recessão econômica da história recente. Os cegos de ocasião enxergam a crise como meramente conjuntural. Segundo os alardes do ilegítimo governo Temer e de seus asseclas, a recessão seria página virada, com sinais de retomada de um ciclo expansivo em 2017: dois trimestres seguidos de crescimento trimestral do PIB, recuperação da produção industrial e das exportações, diminuição do desemprego, estabilização (ou leve crescimento) da renda, melhoria do fluxo de crédito e relativa estabilidade das receitas.

Desde a mudança de governo, vendeu-se a falsa ideia de que a rápida recuperação do crescimento econômico acalmaria os ânimos exacerbados de uma sociedade submetida a intensa polarização de posições e opiniões sobre os rumos do País. Transcorridos quase dois anos, as medidas adotadas e as reformas propostas não só não surtiram o efeito desejado, como denotam um crescente descrédito quanto à superação da crise.

Com a divulgação dos indicadores de agosto, fica claro que, passados os efeitos da safra agrícola positiva do início de 2017, bem como esgotado o impacto (contingente) dos recursos do FGTS liberados pelo governo, o nível de atividade econômica volta a apresentar queda. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) caiu 0,38% em agosto, na comparação com julho. No acumulado de doze meses a prévia do PIB registrou queda de 0,89% e, sem ajuste sazonal, queda de 1,08%.

A produção industrial nacional mostrou redução de 0,8% frente ao mês imediatamente anterior (com ajuste), interrompendo quatro meses consecutivos de expansão na produção. Registre-se que a produção industrial de bens de capital, passada a demanda mais forte pela agricultura, vem apresentando uma trajetória de desaceleração nos últimos quatro meses, sendo que o único grande segmento com crescimento razoável foi o de bens de consumo duráveis, mas por conta das exportações da indústria automobilística. No caso da produção industrial paulista, também um importante indicador, após quatro meses de crescimento houve queda de 1,4% em agosto, de acordo com a Pesquisa Industrial Mensal Regional (PIM-PF Regional) divulgada pelo IBGE.

Assim, ainda que parte da indústria no Brasil tenha ensaiado uma tímida e circunstancial recuperação ao longo dos dois primeiros trimestres de 2017, evidencia-se como insuficiente para deflagrar uma retomada da atividade econômica.

Por seu turno, a propalada queda do desemprego merece ser qualificada: a taxa de desemprego caiu de 13% nos três meses até abril para 12,8% nos três meses até julho (IBGE). Um recuo nem tão significativo e devido, sobretudo, ao aumento do emprego informal, em meio à fraca atividade econômica. Na comparação com o trimestre encerrado em julho de 2016, houve queda de 2,9% no emprego no setor privado com carteira assinada, enquanto o emprego sem carteira subiu 5,6%; portanto, ainda muito calcado na informalidade e no trabalho por contra própria, além de a dinâmica salarial não estar fortalecendo a retomada.

Dados da PNAD Contínua mostram que a população ocupada apresentou elevação de 1,5% no trimestre e 1,0% no ano, e que o nível de ocupação apresentou elevação de 0,6pp no trimestre e estabilidade no ano[1]. Mas mostram, também, que a taxa de desocupação, que apresentou queda (-0,7pp) em relação ao trimestre anterior, manteve alta (0,8 pp) em relação ao mesmo trimestre do ano anterior. Mostram, ainda, que a população desocupada, que apresentou queda de 4,8% no trimestre, teve acréscimo de 9,1% no ano, representando um acréscimo de 1,1 milhão de pessoas ao contingente de desocupados. Já o nível da ocupação (estimado em 54,0%) não apresenta alteração estatisticamente significativa.

Dados da PNAD Contínua e do Índice de Gini mostram alta do abismo social, justamente a partir do terceiro trimestre de 2015. Estudos recentes mostram que o crescimento da desigualdade é explicado, a partir de então, inicialmente, por um crescimento da renda dos mais ricos concomitante à queda da renda dos mais pobres (no acumulado até o final de 2015). Então, por um crescimento da renda dos mais ricos superior ao crescimento da renda dos mais pobres (entre fins de 2015 e início de 2016), seguido por um período de queda generalizada da renda, ao longo do ano de 2016, com a redução da renda dos mais pobres superando a observada para a renda dos mais ricos; e, ao entrar em 2017, há uma reversão da tendência de queda da renda dos mais ricos, não acompanhada do mesmo comportamento para a renda dos mais pobres, resultando em rendimentos, comparando-se o 2º trimestre de 2017 com o 3º de 2015, superiores em 1,3% para os mais ricos e inferiores em 3,4% para os mais pobres.

Quanto aos serviços, o volume em agosto caiu 1%, em comparação com julho. Com referência às consultas por crédito no BNDES, elas tiveram o pior setembro desde 2002. Vale notar a grande contração do crédito para a produção: os desembolsos totais do BNDES despencaram de 4,33% do PIB em 2010 para 1,28% em 2017. Nada menos do que uma queda de 70%. Longe, pois, de indicar retomada do crescimento e superação da crise.

É preciso reconhecer, pois, que ao contrário do apregoado, o débil desempenho da formação bruta de capital fixo, inclusive com queda do investimento (público e privado), revela não só a fragilidade das condições para a retomada em vários setores, mas principalmente continuam a ser frustradas as falsas expectativas de que, com o impeachment e o aprofundamento das políticas de austeridade, a economia brasileira seria reconduzida à trajetória de crescimento.

Parece cedo, portanto, para crer que o pior já passou. Mas a questão fundamental não é se é cedo para afirmar que a recessão está superada. Ainda que ocorra algum crescimento, trata-se de crescimento residual, típico dos ciclos conjunturais. O problema é que, em cenário de reformas como as que estão em curso, a economia que por ventura atravessar a crise será certamente menos dinâmica. A questão fundamental, portanto, é se já não está tardando o bastante a necessária inflexão da política de aprofundamento da austeridade, promotora que é de irreversibilidades estruturais cujos custos (econômicos, políticos, sociais e culturais) já se mostram incalculáveis.

É preciso notar, ademais, que a política de aprofundamento da austeridade se traduz em forte e ardiloso ataque à democracia. Política minúscula, vale dizer, orientada a interditar a ainda tímida construção da cidadania, na medida em que fuzila os direitos fundamentais e salvaguarda os interesses do rentismo financeiro, com juros (reais) ainda dentre os mais elevados do mundo. Política res­ponsável pela escalada de uma verdadeira decomposição econômica, e que não só está longe de apontar para uma sustentada retomada do crescimento econômico, mas a inviabiliza.

Retomada do crescimento, fim da recessão? Bem, assim é… se lhe parece. Afinal, é mais fácil fingir que não se vê ou, vendo, tentar ignorar o que se está a ver.

Uma espécie de epidemia da cegueira, tal como a narrada por Saramago. Aquela “cegueira branca”, metáfora a quem tem visão e não consegue, ou mesmo se recusa, a ver. Mais que cegueira física, no entanto, trata-se da cegueira moral dentro da qual a sociedade se encontra: “Por que cegamos, não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem”.

É triste, e trágico, constatar que estamos acometidos por essa epidemia da cegueira, a do horror vivenciado, mas não visto. Podemos continuar ouvindo alguns cantarem ou assobiarem, desdenhando assim o verdadeiro perigo. Ou podemos clamar por Teia, a deusa da visão. Ela bem poderia vir acompanhada de sua filha Eos, a deusa do amanhecer.

[1] Dados do CAGED mostram que, em julho e agosto de 2017, no mercado formal foram criadas apenas 16 mil vagas nas regiões metropolitanas e 55 mil em outras regiões, em função da cadeia do agronegócio e da indústria automobilística.

 

Texto: José Rubens Damas Garlipp [1]

[1] É economista, doutor em Ciências Econômicas pelo IE/UNICAMP, professor titular do IERI/UFU e secretário geral da ANGE – Associação Nacional dos Cursos de Graduação em Ciências Econômicas. Foi presidente da ANGE (1995-1999) e diretor do IERI/UFU (2000-2007). jrgarlipp@ufu.br

 

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