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Stacey Kent, os artistas do metrô e a música brasileira

O que aproximaria um show de jazz dos artistas do metrô? A música, certamente. Mas o que mais ligaria essas formas de celebração da arte ao público?

Foto: G. Paiva

O corpo. Sem dúvida! Porque é impossível não se movimentar ao se escutar uma boa música. Seja num recinto fechado, ao som da cantora americana Stacey Kent – que inclusive trará sua turnê com a Orchestre Symphonique Confluences para Paris, na Salle PLEYEL agora em novembro – seja nos espaços não tão glamorosos, mas não menos vibrantes das linhas subterrâneas dos metrôs das grandes cidades (que servem de palco para inúmeros artistas incógnitos), a música é capaz de estimular nossos sentidos ainda que estejamos inertes. Seja provocando uma vibração no peito, ou uma batida dos pés no chão, a música consegue plenamente atingir o mais distraído passageiro de um vagão.

Quando eu ando pelas ruas da cidade, fico a pensar se naquele mesmo cruzamento onde espero o sinal abrir, bem abaixo no solo, haverá mais um daqueles concertos de música clássica como na estação do Chatêlet. Formada por inúmeros músicos com instrumentos de corda, a pequena orquestra pública atrai e contagia muitas pessoas que, cansadas das turbulências do diandam rápido, apáticas ou desanimadas pelos corredores submersos. Alheios aos demais companheiros de viagem e concentrados apenas nas telas de seus portáteis, hoje em número muito maior do que os livros, os passageiros do metrô seguem seus caminhos solitários, mas é claramente visível a mudança nos semblantes após uma dose descontraída e às vezes bem curta, mas bem-humorada, de canções ora clássicas, ora populares.

Foto: G. Paiva

Quando ando pelas mesmas ruas e vejo os carros apressados cortando as avenidas, penso nessas ondas sonoras que muito bem poderiam estar azendo o mesmo percurso logo abaixo de suas rodas e nossos pés. E, surdas aos ouvidos de quem passa acima delas, promovem uma efervescência de sons nos subterrâneos trajetos.

Penso nisso também quando vou ao showcase de lançamento do novo álbum, “I know I dream”, de Stacey Kent, e sinto em meus músculos a vibração do seu jazz pulsante bem regado a nossa bossa nova cantada em inglês, francês e em um muito bem pronunciado português.

Foto: G. Paiva

Aliás, conversando com a artista, que estuda a nossa língua em uma universidade dos EUA, percebo o carinho e o respeito para com nossa cultura e nosso idioma. Ela não somente busca falar corretamente nossa gramática, como me deu uma pequena aula sobre as diferenças sintáticas entre a conjugação de verbos franceses e portugueses.

Eu, que já me sentia privilegiada por ter a oportunidade de assistir em primeira mão, com um pequeno grupo de pessoas, a uma belíssima prévia do show e sua nova turnê (mais um presente da Fnac Ternes), não me contive de orgulho quando ela me disse com um sorriso lindo que todas as suas professoras de Português vieram de Minas Gerais! Sim, as melhores! Ouso acrescentar!

Foto: G. Paiva

Stacey – que é compositora, junto com o marido, e possui como letrista o atual Prêmio Nobel de Literatura, Kazuo Ishiguro –, é declaradamente uma apaixonada pela música brasileira. Conversando comigo em português fluente, fez questão de me contar que em seu novo álbum interpreta canções de Edu Lobo e do nosso eterno Antônio Carlos Jobim.

É impressionante o poder que a música tem de nos unir e nos fazer contemplar as relações entre pessoas que nunca se viram antes. Após o show de Stacey, acabamos terminando a noite em um jantar com casais que conhecemos na fila de entrada, e é claro, entre um vinho e outro, o assunto da mesa era a diversidade da música brasileira. E como os franceses gostam de nossos artistas!

Esse encontro promovido pela música me remeteu a um outro, que se passou no metrô alguns meses antes. Um senhor que tocava acordeão, dentro do vagão onde eu estava, conseguiu fazer com que os passageiros começassem a cantar e dançar, tamanho era o seu entusiasmo ao tocar Elvis Presley, Louis Armstrong e algumas músicas populares. Do balanço do reggae às violas espanholas, toda expressão musical ganha vida nesses espaços. Até o nosso conhecido “Ai, se eu te pego” eu ouvi repaginado sob o signo de ritmos caribenhos a animar os transeuntes nas batidas de um atabaque.

Foto: G. Paiva

Por aqui é possível se ouvir desde o clássico Heitor Villa-Lobos até o samba pop de Seu Jorge e, acreditem, os deliciosos acordes psicodélicos de Os Mutantes, quando nos perdemos livremente pelas esquinas e ruas da cidade. O que não faltam por esses lados são elogios para nossa música e nossa pronúncia da língua portuguesa. Como a própria Stacey me disse: o português pronunciado pelo brasileiro é doce! Soa suavidade.

Também pudera, depois de ouvi-la dizer que as três coisas que mais ama em nosso país são a nossa língua, a nossa música e o irreverente Porta dos Fundos, foi com uma deliciosa risada entre doçura e encantamento que eu lhe agradeci profundamente. A cantora mais simpática que eu já conheci, bem como os músicos e as pessoas que encontrei nesse país, não apenas apreciam e valorizam imensamente nossa cultura artística mas, acima de tudo, lhes rendem uma verdadeira homenagem! Merci.

 

Texto: Juliana Schroden
Produtora Cultural e doutoranda em Estudos Literários pela UFU. Realiza estágio pelo Programa PDSE/CAPES na Université Sorbonne Nouvelle-Paris 3. É autora da obra infantil “A aventura de Abaré” (2012), publicada pela editora FTD e do livro de poemas “ImaRgens Urbanas” (2011), pela Lei de Incentivo da Divisão de Culturas da Universidade Federal de Uberlândia.

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