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Estudo descobre planta do cerrado que resiste ao fogo

Pesquisa realizada por laboratório de Biologia da UFU compara a adaptação de plantas em ambientes de desmatamento e queima

Pesquisadora analisa os impactos do fogo no cerrado por meio de flores (Foto: Milton Santos)

Ações do homem contra a natureza, como desmatamento e fogo, são recorrentes e podem comprometer o bioma de um local. Ambos são prejudiciais, mas algumas plantas do cerrado, como a flor Adenocalymma nodosum, mais conhecida como Silva Manso, até “gostam” quando há presença de fogo, pois ele estimula o seu desenvolvimento no local devastado.

Essa foi uma das descobertas do estudo realizado pelas professoras Vanessa Stefani, do Instituto de Biologia da Universidade Federal de Uberlândia (Inbio/UFU), e Denise Lange, da Universidade Tecnológica do Paraná (UTFPR). A pesquisa também teve a colaboração de Andréia Vilela, na época doutoranda, Clébia Ferreira, na época mestranda, e do professor Kleber Del-Claro, do Inbio/UFU. Feito pelo Laboratório de Ecologia, Comportamento e Interações da universidade, trata-se do primeiro estudo que propõe comparar ambientes do cerrado acometidos por desmatamento e fogo.

Os resultados foram publicados na revista Social Biology. Ela recebe pesquisas que envolvem organismos que vivem socialmente, como abelhas. Por conta de o estudo trabalhar com visitações florais, o material foi bem recebido para publicação.

Adenocalymma nodosum tem sua simetria analisada em pesquisa (Foto: Arquivo pessoal das pesquisadoras)

O estudo

Em um ambiente próximo à cidade de Uberlândia, as pesquisadoras tiveram a oportunidade de verificar uma pequena área que foi acometida por fogo e uma outra área desmatada, sendo uma ao lado da outra. Foi observado o quanto determinadas plantas são adaptadas aos ambientes de estresse e como elas podem se comportar de maneiras diferentes com relação ao fogo e ao desmatamento.

A espécie observada foi a Adenocalymma nodosum, muito comum em áreas de pastagem. Na biologia, ela é chamada de espécie pioneira de sucessão secundária. Vanessa Stefani explica que uma espécie pioneira é a primeira planta que surge após um momento de estresse e que “ela tem características como brotação, desenvolvimento, reprodução e produção de várias sementes de um modo muito rápido”.

A Adenocalymma nodosum é classificada como “sucessão secundária” por ter existido no ambiente antes de ele ter sido danificado. Então, essa plantinha, que tem uma distribuição de sementes muito ampla, rapidamente brotou nessas duas áreas e foi analisada de acordo com a sua assimetria.

Normalmente, são avaliadas as folhas das plantas. Quando ela se desenvolve de maneira saudável, as folhas são bem simétricas, sendo um lado idêntico ao outro em termos de medida, mostrando que ela é saudável e apta para aquele lugar. Porém, quando um lado é maior que o outro, pode ser um indicativo de que a planta está sofrendo com o ambiente. Nessa pesquisa, além de se verificar as folhas, também foram observadas as flores, pois elas também têm aspectos de simetria.

Dessa forma, foi constatado que a áreas desmatadas tinham as flores mais assimétricas (lados com tamanhos diferentes) e as áreas com fogo, flores muito simétricas (lados com tamanhos semelhantes). Para realizar o estudo, foi necessário ir a campo para coletar várias informações. Após as flores caírem naturalmente, era observado se ela havia sido polinizada. Em seguida, era avaliada a anatomia da flor, algo desafiador por ela ter formato tubular. Para isso, a flor era aberta e medida para se constatar se existir simetria.

Um fato interessante é que flores simétricas atraem os melhores polinizadores, ou seja, insetos como abelhas visitam mais essas plantas. Sendo assim, “o fogo no cerrado não interfere no desenvolvimento de plantas primárias, pois elas crescem bem, têm flores mais simétricas e recebem mais visitantes florais”, conta Stefani.

A pesquisa começou em outubro de 2013, quando foi observado o processo de queima do ambiente, seguido pelo acompanhamento da rebrota da planta e o seu crescimento, até o início da reprodução, que é o momento em que aparecem as flores. Após essas fases, as pesquisadoras iniciaram os experimentos da simetria das flores e as suas visitas florais e, de janeiro até abril, acompanharam se havia formação dos frutos. Assim, a pesquisa durou em torno de seis meses, prazo considerado curto para o ramo da biologia.

Flores são uma das razões que atraem as formigas para os ambientes queimados (Foto: Arquivo pessoal das pesquisadoras)

Morcegos, aranhas e formigas

Existem outros animais que auxiliam na reestruturação do ambiente. É o caso dos morcegos. Por serem animais que voam e por alguns se alimentarem de frutos, como os da figueira, após ingerirem esse alimento, a semente passa no trato digestivo do morcego que, durante o voo, defeca. Então, quando esse resíduo cai em uma área, ele se torna um potencializador na germinação de plantas.

Entretanto, existem animais que precisam de um tempo maior para se recomporem em ambientes destruídos. É o que ocorre com as aranhas e as formigas. Elas são atraídas por plantas com nectários extraflorais, que liberam líquidos açucarados com a presença de proteínas. Porém, o estabelecimento desses organismos acontece de maneira muito lenta, pois eles não conseguem fugir do fogo por produzirem teias e ficarem presos a elas, ou por estarem associados às plantas e caminharem forrageando.

Os impactos do fogo

Apesar de o cerrado ser um bioma adaptável ao fogo, a frequência com que ele ocorre pode se tornar um problema para as plantas e os animais, pois é necessário um intervalo de tempo após a queima para que algumas espécies de plantas tenham condições para novamente brotar.

Stefani relata que muitas espécies animais e vegetais tendem a desaparecer e acabam não tendo tempo para reconstituir o ambiente. “Todo ano ter fogo é danoso para o ambiente. A planta, às vezes, demora muito tempo para se recuperar, então, ela precisa de um tempo maior para se adequar em termos de fisiologia, das suas capacidades reprodutivas”. Já o desmatamento é sempre negativo na opinião da pesquisadora, pois nenhum ambiente é adaptado, então, ele se torna muito mais prejudicial do que o fogo.

 

Texto: Comunicação UFU

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