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Em coma profundo, o rock ainda respira com aparelhos

É frustrante ver a Taylor Swift dominando. Pior é saber que não há uma banda atualmente digna para competir com o sucesso dela.

Anderson Tissa é publicitário e jornalista. Assina a coluna semanal “Vida Longa, Baby”.
Imagem: Douglas Luzz

Frustrante. Esta é a palavra da vez. No sábado, perdemos Malcolm Young. Um dos grandes rifeiros e membro criador de uma das maiores bandas da história: o AC/DC. Tentei acompanhar seu estado de saúde desde o anúncio de sua doença em 2014. Malcolm estava com demência. É aquela coisa, infelizmente você sabe que vai acontecer, você não deseja, não quer, não pensa, mas sabe que uma hora vai acontecer. Diferente de quando você deseja muito, cria expectativas e se frustra com o resultado. Como foi a vexaminosa saga de lançamento de Chinese Democracy, do Guns n’ Roses. Foram dez anos de espera para ouvir um disco que nem de longe tem a pegada e a alma da banda. O engraçando é que nesses dois casos desejando ou não, o resultado não foi legal.

É frustrante também saber que Noel Gallagher está se distanciando do rock. O mesmo disse que Who Built the Moon?, terceiro álbum com a High Flying Birds, no qual está trabalhando no momento, não é definitivamente um disco de rock n’ roll. É decepcionante também acompanhar via Twitter, Noel e Liam, líderes de uma das últimas grandes bandas de rock, terminarem suas carreiras choramingando manchetes e discutindo quem fez mais pelo o Oasis. Ambos, juntos, poderiam estar num estúdio criando álbuns icônicos e inesquecíveis, como o (What’s the Story) Morning Glory?, de 1995. Só que eles preferem tuitar.

Sabe quando você se pega contando os dias para a estreia daquela série? Ou daquele filme? Ou novela? Sua cabeça não desfoca de tal assunto. Aguardei ansiosamente pela 1ª temporada de O Justiceiro. Gostei é verdade, porém fiquei com aquele gostinho na boca de quero mais. Mas de uma coisa não posso reclamar, a música tema da série é One, do Metallica. Enter Sandman, outra canção da banda americana, também compõe o universo da história de Frank Castle. São pontos positivos, apesar de achar óbvio. Principalmente One, a música tem vários trechos que se referem a armas, lutas, dor, memórias, bombas e minas. A canção tem tudo a ver com a série? Tem. Só que é óbvia demais, é como ilustrar uma reportagem sobre futebol americano com Born in the USA, do Boss. E isso de certa forma, frustra. Esperamos mais criatividade, Netflix.

Sabe o que também é frustrante? Ter a certeza de que o melhor do U2 ficou nos 80 e não vamos ouvir um som da altura da banda tão cedo. Ou nunca mais. Qual foi o último álbum decente dos irlandeses? All That You Can’t Leave Behind? Se concorda com a sugestão, saiba que já se foram 17 anos de seu lançamento. E se mudarmos a pergunta para o último grande disco, precisaríamos do DeLorean para encontrá-lo.

É frustrante saber que veremos Ozzy Osbourne pela última vez em 2018. É frustrante ligar o rádio e descobrir que a banda de rock mais executada no momento é o Coldplay. É frustrante ver a Taylor Swift dominando o mundo, pior ainda é saber que não há uma banda atualmente digna para competir com o sucesso dela. E também é muito frustrante saber que o hip hop/R&B ultrapassou o rock, em gosto popular no EUA, pela primeira vez na história.

Nem quero e nem vou mencionar que nunca mais veremos um novo Led Zeppelin ou um novo Queen. Essas bandas estão tão acima da média e mantém o rock ainda respirando com aparelhos. Não me frustra saber disso porque não nascem mitos todos os dias. O que me incomoda é saber que mesmo com tanta tradição, força e atitude, o rock insiste em permanecer frustrantemente na UTI, quase morto.

O que falta? Bons compositores? Novas bandas, músicas? Antigamente não faltava nada. É só ouvir esta playlist com vários clássicos das bandas mencionadas acima.

Texto: Anderson Tissa

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