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Pôr do sol no canal Saint-Martin

Um dia de sol é um convite para celebrar a vida. Cada caminho percorrido nas ruas se torna mais leve e convidativo.

Foto: G. Paiva

Uma tarde de sol pelo Canal Saint-Martin é um exemplo dessa fluência jovial que os raios solares transcrevem para a paisagem. Sentada na Place de la République, na saída do metrô, antes ainda de seguir rumo ao Canal Saint-Martin, começo a observar os inúmeros meninos e meninas em suas manobras nos skates. É gostoso se ouvir o barulho da fluidez das rodas e suas batidas no solo após os saltos das plataformas e rampas que compõem o local, devidamente preparado para essa atividade. Mais à frente, bem ao centro da mesma praça – onde se situa o monumento à República com a esplendorosa estátua Marianne no topo -, uma manifestação popular se inicia. Palco de inúmeros movimentos sociais e políticos, a atual Place de la République abriga também as pessoas que buscam um espaço para expor seus trabalhos artísticos ou simplesmente se encontrar e observar o centro urbano ao redor.

Nosso passeio se iniciou por lá, mas seguimos na direção do Canal Saint-Martin, outro palco para os encontros, dessa vez, mais bucólico e romântico. Contrapondo-se à exuberância do Rio Sena, o canal tem um charme discreto e uma leveza luminosa que o tornam especial para se flanar durante uma tarde de domingo, sozinho ou, por que não, com alguém de quem se gosta.

Inaugurado em 1825, como parte da rede de tratamento de água da cidade, o canal é hoje um caminho onde se pode contemplar a paisagem e já no início do passeio tomar um chá em um dos bistrôs ou cafés instalados nas suas margens. As charmosas lojinhas ao redor, como as três interessantes boutiques que compõem a Antoine & Lili, artisticamente inspiradas na pintora Frida Kahlo, apresentam aos transeuntes suas vitrines repletas de artesanato e até delicadas roupas e brinquedos para crianças. Com objetos e painéis que são uma delícia de se ver. Os três espaços juntos traduzem um aconchegante encantamento sensorial para os olhos. E, repetindo o que disseram algumas brasileiras que passavam em frente, quando comentavam que as vitrines davam gosto somente por se olhar, senti-me verdadeiramente “window shopping”.

Foto: G. Paiva

Por falar em janelas, o local me fez recordar as pinturas de Alfred Sisley, o pintor impressionista que tão belamente retratou o canal. Quando pintou as antigas embarcações às margens do Saint-Martin, certamente não imaginaria as atuais nuances de cores que o envolvem. Também no seu entorno, seguindo a fluidez das águas, crianças e adultos (seja caminhando a pé, ou mesmo andando de bicicletas ou patins) dividem as avenidas que serpenteiam os dois lados do canal com os turistas que estão igualmente a apreciar as belezas do lugar. De onde se pode desfrutar, inclusive, das inúmeras telas que adornam as grades dos jardins e muros os quais acompanham o trajeto das águas, por onde deslizam os patos e sobrevoam as aves que também encontramos por lá.

Foto: G. Paiva

Uma dessas exposições ao ar livre é a intitulada Les habitants, da fotógrafa Elene Usdin (uma cortesia da Galeria Esther Woerdehoff), que retratou adolescentes inspirando-se nas pinturas clássicas. Para além da fotografia, a artista buscou acrescentar ao registro pinceladas que remetem a elementos da natureza, a fim de reforçar as características peculiares aos arroubos juvenis de cada personagem retratado. Uma bela composição para os transeuntes que percorrem aqueles caminhos.

Foto: G. Paiva

Mais à frente, alguns grafites anônimos – cujos traços bem delineados refletem a arte engajada e performática das ruas e suas expressões cotidianas – sinalizam que nos aproximamos novamente das efervescências da cidade e nos direcionam para olhares mais críticos acerca da multiplicidade de vivência e vozes que encontramos nos centros urbanos.

E assim, nos aproximando do metrô, um último olhar para o canal e já é pôr do sol. Apoiada na grade de uma das inúmeras pontes, observo as luzes dos postes se acenderem e o crepúsculo se anunciar. Vontade de ficar mais um pouco e sentir uma vez mais o aroma do outono nas folhas caídas nas águas que fluem pelo Saint-Martin. Ou ainda observar novamente as aves em revoadas que, juntas, dançam uma coreografia serena no anoitecer. Ou ouvir novamente as batidas das rodas dos skates na Place de la République e também acompanhar mais de perto as canções que os adolescentes ouvem e cantam em voz alta enquanto caminham (ou flanam), também juntos, assim como aquelas aves, pelas ruas da cidade.

Foto: G. Paiva

Flanar é gastar o tempo e fluir como as águas. Sem preocupações maiores, sem se reter em nenhum ponto. Baudelaire, o poeta e eterno flâneur que percorria as ruas luminosas dessa cidade, deveria certamente já ter caminhado por ali. Assim como Sisley e suas deslizantes pinceladas, e tantos outros inspirados por essa bucólica e charmosa paisagem.

Mas é hora de tomar o caminho de volta e um bom chocolate quente porque a noite chegou fria e preciso escrever sobre o pôr do sol no Canal Saint-Martin.

 

Texto: Juliana Schroden
Produtora Cultural e doutoranda em Estudos Literários pela UFU. Realiza estágio pelo Programa PDSE/CAPES na Université Sorbonne Nouvelle-Paris 3. É autora da obra infantil “A aventura de Abaré” (2012), publicada pela editora FTD e do livro de poemas “ImaRgens Urbanas” (2011), pela Lei de Incentivo da Divisão de Culturas da Universidade Federal de Uberlândia.

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