Destaque Esportes Expresso Futebol

Bastidores de uma equipe de futebol de tradição!

Quando ainda jogava seus rachas com os amigos no Praia Clube, tive conversas longas com um dos maiores ídolos do Uberlândia Esporte Clube, o Fantástico Fazendeiro.

Foto: Divulgação

Nossos palavreados eram intermináveis e agradáveis.  Por várias ocasiões, os companheiros nos interrompiam:

– Ou, vamos lá! O papo está bom, mas o segundo tempo da pelada vai começar!

Nos anos 60 e início de 70, o Verdão tinha um esquadrão de ouro. Hamilton, Zinho, Dunga, Neiriberto, Renato, Ferreira, Quinzito, Reis e outros monstros sagrados do futebol.

O Zinho era o formador de opinião e o elo entre atletas e a diretoria!

Como ainda havia a Lei do Passe, as equipes brasileiras mantinham, em suas hostes, excesso de jogadores.

Havia facilidades enormes para reforçar o Furacão, indo aos grandes centros do esporte-rei.

Com esses bambambãs compondo o Verde, e todos de fora, impossível aproveitar a prata da casa.

Qualquer menino da região que tentasse a sorte no Periquito, sofria horrores dos medalhões nos treinos coletivos, tomando cada bordoada! A maioria desistia.

Para piorar, os treinadores, também não daqui, fingiam não ver nada. Sempre evitavam atritar-se com as grandes estrelas verdes, queridas demais pela galera.

Lembro-me de Pratinha, Donizete Cabeça, que não vingaram aqui e brilharam no grande rival, Uberaba Esporte.

Fazendeiro conseguir vencer e fazer parte dessa constelação selecionada, foi milagre e muita perseverança.

Antigamente, nas preliminares dos jogos pelo campeonato mineiro, havia confronto dos aspirantes.

Fazendeiro encantava todos com suas jogadaças. Ele levava mais cedo para os jogos um enorme público, que o amava.

Com o saco cheio de tantas injustiças, não havendo chances ao nosso Fazenda, a torcida “deu um fecha” na diretoria e na comissão técnica. Exigiam essa jovem promessa relacionada com os craques principais.

Diante de tanta pressão, o pedido da massa foi atendido.

O tempo passou e, por pirraça, o treineiro não colocava em campo Fazendeiro.

Mas os céus ficaram ao lado do povo. Num jogo no Juca Ribeiro contra o poderoso Valeriodoce da época – poderoso porque era bancado pela Vale do Rio Doce, que despejava dinheiro no time de Itabira –, o Verdão perdia por 2 a 0. Tomávamos um vareio de bola vergonhoso. O estádio inteiro, lotado, pedia: “Fazendeiro! Fazendeiro! Fazendeiro!”.

O técnico, marrento, desafiou a torcida uns bons minutos, não fazendo a substituição exigida.

O caldeirão Juquinha ia explodir. Foi quando aos 33 minutos do segundo tempo, com um cochicho de um diretor no ouvido do distribuidor de camisas, Fazendeiro entrou no gramado.

Entrou no templo sagrado da Floriano Peixoto aquele magricela, andar desengonçado, meias arreadas, sem caneleiras, andar vacilante, tentando se equilibrar. Para a massa, adentrava o gramado o mais lindo príncipe e o melhor atleta do planeta. O alçapão explodiu, entusiasmado! Na primeira jogada, Fazendeiro deu de canela. Todos olham o técnico. Dizem que ele sorriu!

Na segunda bola recebida, nosso herói meteu uma caneta no zagueirão e soltou um canudo, lá onde a coruja dorme. Caiu uma bomba atômica no Juca! As arquibancadas tremiam! Pensei: “Vai cair!”.

Logo depois, Fazendeiro enfiou mais dois gols e o Verde venceu de 3 a 2!

Após a grande vitória, foi um regozijo total na cidade. Fazendeiro havia ganhado com merecimento o manto verde como titular absoluto.

No primeiro coletivo da semana, o técnico deu a camisa do time reserva ao xodó da galera.

Foi nessa hora que Dunga parou o treino e disse ao técnico:

– Está ficando louco? Esse menino é titular!

Desde então, nosso ídolo passou a ser absoluto no Verdão!

Outra hora, conto as intrigas dele com o craque Zinho!

 

Texto: Lucimar César

Notícias relacionadas