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Das histórias que nos contam as feirinhas de antiguidades

Não importa aonde você vá, não importa onde você esteja. Em algum momento certamente você vai cair em alguma feirinha de rua por aí. E, convenhamos, é uma delícia!

Foto: G. Paiva

Eu tenho o privilégio de uma vez por mês, ao abrir a porta de meu prédio, dar de frente com aqueles pequenos bibelôs que compõem as feiras de antiguidade que se estendem por quarteirões inteiros, tornando as ruas da cidade mais coloridas com seus artefatos delicados.

A feira de antiguidades que acontece na rua de minha casa não é uma exceção nesta cidade rica em histórias por onde quer que se vá. Aliás, como eu disse antes, por onde quer que formos, não importa o país, haverá sempre algum tipo desse comércio aconchegante que promove deliciosos encontros tão informais e pessoais, tanto para os feirantes, quanto para os compradores.

As feirinhas por aqui se assemelham muito às de outros locais da Europa e do Brasil, como a que acontece na charmosa Praça Benedito Calixto, em São Paulo. Para não citar tantas outras que muitas vezes acontecem quase despercebidas em pequenas ruas de algum lugar especial.

De obras de arte e artesanato, móveis antigos, aos brechós ao ar livre, as feiras têm sempre histórias para contar. Experimentando os glamourosos casacos de frio ou os chapéus com penas e plumas, não deixo de me lembrar das antigas tradições familiares em que as filhas herdavam as roupas das mães, as irmãs trocavam os vestidos e as peças iam passando de geração em geração.

Foto: G. Paiva

Houve um período mesmo em que as vestimentas compunham os testamentos, sendo destinadas aos herdeiros, como os demais bens de família. Assim como os vestidos de casamento, que passavam de mães para filhas, sobrinhas, cunhadas… Assim como os livros, que contam muito mais histórias nas anotações nos cantos das páginas do que nas linhas tipografadas propriamente ditas.

Outro objeto delicioso de se adquirir numa dessas feirinhas. Os livros. Às margens do Rio Senna, podemos desfrutar das inúmeras bancas de sebos, onde se podem encontrar obras clássicas, como as de Victor Hugo e Balzac, que datam de até mais de cem anos. O mais interessante nessas publicações antigas é que nelas encontramos anotações que podem valer uma fortuna, dependendo do antigo proprietário que nelas registrou com sua pluma as impressões sobre a obra.

Foto: G. Paiva

Um livro pode contar várias histórias, aquela pela qual o adquirimos, aquelas que estão nas entrelinhas e que o autor nos presenteou como um brinde a mais ao as decifrarmos e aquelas que nós contamos nas anotações que fazemos. Um livro assim, repassado de mão em mão, nos rende milhares de pequenos contos extras que se somam às narrativas pessoais de quem o leu e indicou aquela obra.

Andando pela feira em frente à minha casa também encontro livros assim, com cheiro de história bem vivida. Assim como os casacos, assim como as esculturas africanas de países como Nigéria e Senegal, cujo vendedor vai me contando sobre as origens de cada uma, e me levando a uma deliciosa viagem cultural para além-mar ao me mostrar como as características de cada país são tão múltiplas e diversas entre si.

Foto: G. Paiva

Quanta riqueza! Quanta sensibilidade e delicadeza tem uma feirinha! Andando por aqui, ainda consigo me lembrar de outra feira deliciosa também perto de casa, mas aí, do outro lado do oceano!

Que saudades dos sábados de manhã na Rua Fernando Costa! Que saudades do cheirinho do pastel que eu esperava ansiosa ficar pronto e já me abre o apetite só de escrever sobre ele.

As feiras têm isso, não importa se são de antiguidades, de verduras e legumes, de roupas antigas ou novas, de discos ou brinquedos, elas sempre têm essa aura de “esquina de casa”, uma familiaridade que os doces de compota e os queijos Minas das inúmeras feiras no Brasil nos remetem como nas casas de avó. Nos remetem à infância.

Foto: G. Paiva

Andar por uma feirinha e degustar uma farinha, barganhar um desconto na bijoux e experimentar uma echarpe. Nada mais sábado de manhã, nada mais quinta-feira antes do almoço, nada mais do que a extensão da casa da gente, dos encontros inusitados. Mas sempre uma nova história para viver e contar, na banca do pastel, no raro livro adquirido. Bem ali, na rua de casa, na porta do prédio! Quem nunca se rendeu ao charme de uma feirinha?

 

Texto: Juliana Schroden
Produtora Cultural e doutoranda em Estudos Literários pela UFU. Realiza estágio pelo Programa PDSE/CAPES na Université Sorbonne Nouvelle-Paris 3. É autora da obra infantil “A aventura de Abaré” (2012), publicada pela editora FTD e do livro de poemas “ImaRgens Urbanas” (2011), pela Lei de Incentivo da Divisão de Culturas da Universidade Federal de Uberlândia.

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