Entrevista Expresso Foco

Celso Machado fala sobre ações e contribuições para Uberlândia na comunicação

Celso Machado é um dos pioneiros da comunicação na cidade. Em entrevista a O JORNAL de Uberlândia, ele fala do jornal que lançou aos 17 anos, na época, impresso em mimeógrafo. Também destaca as ações na publicidade e na televisão. Com uma atuação em todas as mídias, Machado analisa as mudanças em função das novas tecnologias e destaca a importância do resgate da história na formação da identidade de um povo.

Nesse sentido, há aproximadamente 15 anos ele trabalha no projeto “Uberlândia de Ontem e Sempre”, que conta com uma série de TV e um almanaque sobre a história e as personalidades da cidade. Confira abaixo os principais trechos.

Foto: Leonardo Leal

O senhor é um dos pioneiros que têm dado uma contribuição importante para a comunicação em Uberlândia. Como avalia a mídia digital?

A internet é a democratização do acesso ao conhecimento. A mídia digital nos permite duas coisas, que sempre quisemos e era difícil de ter: a instantaneidade da informação, na hora e do jeito que você quiser. Antigamente nós éramos escravos da programação. Para saber se o Uberlândia ganhou você precisava – se você não tivesse acompanhado o resultado do jogo – ou você tinha que esperar o programa de esporte no outro dia, ou telefonar para algum amigo. Hoje, não é muito comum, mas quando o Vasco ganha, cinco minutos depois do jogo, mesmo não tendo assistido, eu vejo os melhores momentos, e de ângulos diferentes. Esse é um.

O outro é que você vê instantaneamente o que acontece, essa coisa de os tapetes terem ficado transparentes. Não tem nada mais que você esconde, é um benefício muito grande. O problema, como tudo que tem, é também o uso que é feito disso, e uma coisa que nós estamos vivendo, acho muito crítico, que é a gente fazer julgamento antes da sentença. A gente vê carreiras sendo aniquiladas, sem a gente entender.

A gente que trabalha em mídia sabe muito bem do risco que é, o poder que você tem na mão quando você edita uma gravação, você edita uma matéria, porque aprendi isso e é uma coisa que acredito. Não existe jornalismo isento. O que precisa existir é o jornalismo ético. Um jornalismo honesto. Não vejo problema nenhum um jornal se posicionar claramente a favor de A ou B, o que ele não pode é ser desleal e ser desonesto em relação à informação.

 

Na sua opinião, qual o papel da imprensa diante das incertezas políticas, como acontece atualmente no Brasil, em que a política derrete como sorvete?

A imprensa é o guardião da população. A gente tem que ter uma imprensa que tenha uma cobertura mais ampla das informações que estão acontecendo. No interior, eu penso que um papel da imprensa é a abordagem dos assuntos, porque a notícia hoje pelas mídias sociais tem n formas, ela é instantânea. O que precisa é ter bons analistas para se ter oportunidade de ver um assunto sobre as diferentes óticas. É bom quando em um veículo têm diferentes articulistas, que pensam diferente.

Agora, o que penso é que a imprensa de Uberlândia devia se dedicar mais a notícias daqui da região. Me incomoda e eu já fui, além de colunista, fui do conselho editorial do Jornal Correio e não consegui lá – o que lamento até hoje – é que, principalmente na parte de atrações turísticas, veem-se os nossos veículos cobrindo Paris, Argentina, Chile, que não precisa disso na imprensa local.

Mas não se tem uma informação sobre as trilhas que temos em Uberlândia, as cachoeiras de Indianópolis, as cachoeiras de Miranda, a beleza de Nova Ponte, que está tão perto, Cachoeira Dourada, que é lindo.

Recebemos recentemente um pessoal da Nova Zelândia, levei eles em lugares famosos da região de turismo. Eles gostaram, mas a paixão deles foi por Nova Ponte. E eles eram da Nova Zelândia, um país, talvez, das maiores belezas naturais.

 

Após o encerramento do Jornal Correio de Uberlândia, no último dia 31 de dezembro, como você avalia o setor?

Não é o que as pessoas às vezes podem pensar, o aspecto pessoal, mas eu tenho algumas coisas mal resolvidas na vida e uma delas é o encerramento do Correio. Tenho uma representação muito pequena dentro de Uberlândia, mas fiz esforços no sentido de o jornal continuar. Tive iniciativa, juntei pessoas, levantei possibilidades, mesmo depois. Tanto que eu tinha uma das coisas: eu ia produzir um vídeo, um documentário chamado “A Morte de um Jornal”. Queria registrar os últimos dias do Jornal Correio e não fiz isso, estava autorizado pela direção do jornal, porque eu não queria que o jornal morresse.

Então, até hoje ainda tenho isso, depois mesmo que o jornal tinha parado, tive iniciativas, porque para mim uma das boas notícias que a gente poderia ter é que o Correio não tivesse acabado, mas que tivesse tirado um ano sabático, e voltasse. Porque um veículo com 80 anos de tradição não deveria acabar.

Fico triste porque acho que isso é um sinal da decadência da sociedade de Uberlândia. Quando você vê o Uberlândia Clube com um patrimônio maravilhoso no estágio em que está… O Uberlândia Esporte, que agora deu uma ressuscitada, mas passar o que passou… Com todo respeito e sem desmerecer em nada quem está dirigindo a equipe, porque está fazendo um trabalho muito relevante, mas mesmo assim o time está muito aquém da expressão da cidade. E agora, o Correio de Uberlândia. Então, a cidade fica indignada, mas não toma iniciativa. O que falta aqui não é torcida, falta é atuação. É uma pena, porque na hora que um grupo político lançar um jornal, o que é sempre uma possibilidade existente, aí surgem outros. A gente precisaria disso para ter um jornal?

Hoje, tem um jornal que tem tentado cobrir esse espaço. Tem uma distância entre ele e a proposta. É o que a gente tem. Acho que a gente deveria apoiar essas iniciativas, mesmo reconhecendo as limitações. O Luiz Fernando Quirino, que foi um dos expoentes da imprensa uberlandense, falava: “A imprensa escrita é o registro da história”.

Acho que o impresso devia dedicar menos tempo à notícia e mais espaço à análise. Mas eu sinto essa lacuna, uma cidade do nosso porte precisa ter as mídias digitais que tem, mas uma versão impressa faz falta.

 

Quais os momentos que o senhor destaca na sua trajetória na área de comunicação?

Comecei na comunicação com 17 anos, sempre gostei dessa área. Tive ótimos professores de Português. Então, eles me estimularam muito nessa questão da leitura e da redação. Com 17 anos lancei um jornal, que imprimi em mimeógrafo, chamado Teleco, que era da CTBC, depois virou revista. Teve uma longa existência, mais de 30 anos.

Teve um período também, de 1975 a 1980, que tive uma empresa de jornalismo empresarial chamada Redice, nessa época eu lancei a revista do Praia, o jornal do Praia, Associação Comercial, Sindicato Rural e clubes de serviços de Uberlândia. Depois em 1982 foi criada a ABC Propaganda, basicamente a primeira agência de propaganda de Uberlândia, ligada ao grupo Algar. Estive como superintendente dela até 2000. Depois estive como diretor de comunicação do Grupo Algar até 2010, e até 2015, de cultura corporativa.

Já há uns 15 anos, a gente criou e produz o “Uberlândia de Ontem e Sempre”, uma série de TV focada na história e na memória da cidade, que gerou alguns filhotes como o “Almanaque Uberlândia Ontem e Sempre”, já com seis anos. Hoje tenho outras séries como “Simplesmente Minas”, um projeto veiculado estadualmente e depois em TV fechada, nacionalmente. Vai entrar na sua terceira temporada.

 

Qual a importância da valorização da história de Uberlândia com o trabalho de resgate que o senhor faz com o programa, a revista e o almanaque?

Uma cidade sem conhecer o seu passado não tem identidade. Então, ela precisa reconhecer as pessoas, os caminhos, as trilhas que ela passou para chegar aonde chegou. E isso é que nos ajuda a sinalizar um futuro. Não é uma questão de saudosismo como muita gente pensa, mas é uma questão de identidade.

Conhecer a história – e quando se aprofunda na história de Uberlândia, entende-se porque essa cidade cresceu e como se desenvolveu. Então, quando se fala que é localização geográfica, é comodismo. Porque se fosse localização geográfica, nós temos cidade a 30 km de Uberlândia que praticamente teria se desenvolvido do mesmo jeito. Não é por isso. É pela visão e pelo comportamento das pessoas daqui.

Sobretudo, uma coisa que a gente vai vendo muito claramente quando se vê história e memória: a competência de Uberlândia em receber pessoas de fora, tratamos bem e fazemos se sentirem como sendo daqui.

 

Uberlândia está a 100 km de Uberaba, outra cidade tradicional. Foram as pessoas que vieram de fora que fizeram a cidade progredir?

O que a gente percebe que esse crescimento é porque Uberlândia nunca ficou dentro dela, a cidade sempre foi para fora. Uberlândia construiu a Ponte Afonso Pena, que liga Minas ao Estado de Goiás, Itumbiara, para receber todos os grãos que eram produzidos ali no Sul de Goiás.

Então, nossa cidade foi um dos maiores centros cerealistas da região, sem nunca ter plantado arroz. A influência que Uberlândia teve na construção de Brasília foi muito grande. E a diferença básica que acredito que tem entre Uberlândia e Uberaba é que um pecuarista tem um patrimônio de R$ 1 milhão, em animal, com uma pessoa cuidando dela, e com uma remuneração bem limitada.

Já R$ 1 milhão na mão de um empresário, de um comerciante, ele vai gerar uma riqueza que multiplica em muito as oportunidades. No meu ponto de vista, o crescimento de Uberlândia está atrelado ao comércio. Foi o comércio que impôs e trouxe as indústrias.

 

Qual o fato mais marcante que o senhor destaca na história da cidade?

Uberlândia tem uma característica que é um privilégio: sempre foi muito bem servida de bons políticos. Tem algumas exceções, mas aqui a exceção é ao contrário: nós tivemos alguns ruins. Mas, a grande maioria é boa, principalmente prefeitos e deputados.

Isso foi responsável pelo crescimento da cidade, mas acredito como fato marcante a construção de Brasília, porque Brasília proporcionou, no nosso entendimento, o grande salto de Uberlândia.

Até ali Uberlândia era uma cidade que tinha potencial, se esforçava, mas aproveitou muito bem essa localização, de ficar na ligação entre São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Uberlândia abasteceu principalmente as lojas de material de construção, as obras de Brasília.

 

Alguma personalidade que o senhor destaca?

Uma pessoa que teve uma contribuição, sem dúvida, extraordinária no desenvolvimento de Uberlândia é o Rondon Pacheco. Quando você olha, o dedo do Rondon está nas principais iniciativas, desde a energia elétrica, passando pelo ensino, por tudo. O Rondon, ainda que tenha algumas pessoas que o criticam sem conhecê-lo, foi uma pessoa de uma integridade absoluta.

Era um homem público por essência e por excelência. Como uberlandense, ele foi uma pessoa diferente de tantos políticos que nós temos hoje: em vez de pensar nele, pensou na cidade, no Estado e no Brasil. Esse é o tipo de pessoa que faz uma diferença na cidade, no Estado, no País.

 

Texto: Leonardo Leal

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