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O futuro do rock é enterrar o passado?

As bandas atuais sofrem injustas comparações com os grandes e brilhantes clássicos do passado. O que às obriga a tirar leite de pedra a cada composição.

Revisão: Pedro Ivo

Anderson Tissa é publicitário, jornalista e autor da coluna Vida Longa, Baby.
Foto: Douglas Luzz

Robert Plant passou o bastão. O ex vocal do Led Zeppelin parece dar a mínima para uma possível reunião da banda em 2018 e ainda pediu mais apoio aos roqueiros mais novos. Recentemente, o cantor cedeu uma entrevista para a revista inglesa Classic Rock e quando perguntado sobre um breve retorno da sua ex banda, respondeu: “A impressão é que não há mais nada novo e empolgante por aí, mas o fato é que há sim. Então parem de viver no passado”.

Ok, Plant. Você venceu. Chega de derramar lágrimas e dar birra pelo o que se foi.

Na semana passada li uma entrevista muito legal feita pelo UOL com Dinho Ouro Preto. O vocalista do Capital Inicial parece seguir a mesma linha de pensamento de Plant. Embora ainda afirme permanecer fiel, ouvindo as mesmas coisas que curtia com 15 anos, Dinho acredita que para “atestar a saúde do rock brasileiro não é ver se o Capital está bem”, mas sim, estar no meio dos mais novos.

Ambos estão cobertos de razão.

Pelo que sei, comercialmente, o Capital está muito bem. A banda contou no programa do Danilo Gentili que o maior faturamento (da história do grupo) aconteceu na turnê do álbum Acústico em NYC (Ao Vivo), lançando em 2015. Evidentemente estão vivendo com o que fizeram nos anos 80, não há nada de novo no Capital Inicial. Muito menos no Led Zeppelin. Coda, disco derradeiro de estúdio da banda inglesa foi lançado há tanto tempo que tem a minha idade. Não que eu esteja precisando de doses concentradas de Viagra, mas já se passaram 35 anos.

Mesmo que tenham carreiras sólidas e bem-sucedidas não quer dizer que o rock vai bem obrigado. É a mesma história da seleção de futebol da Alemanha. Depois da péssima campanha na Copa da França, em 1998, onde tomou uma lavada, de 3 a 0, da Croácia nas quartas de final, e da terrível participação na Euro 2000, onde não venceu nenhum jogo, os alemães voltaram a se organizar. Se estruturaram, foram atrás de novos talentos, investiram na nova safra e o resultado todos sabem. Atual campeã do mundo com direito a um histórico placar contra a seleção brasileira.

Dar play apenas nos clássicos não vai fazer o rock n’ roll (e suas incontáveis vertentes) evoluir. A nova geração precisa se organizar. Um ótimo e muito próximo exemplo é o atual sertanejo, que domina as rádios, serviços de streaming e os principais programas de TV do país. Aprender com eles é um bom começo.

Há também o problema de muita gente ainda torcer o nariz para o novo. As bandas atuais sofrem injustas comparações com os grandes e brilhantes clássicos do passado. O que às obriga a tirar leite de pedra a cada composição. Muitas delas até conseguiram criar excelentes canções e até chegaram a fazer barulho na mídia. Ou seja, Plant está certo. Tem coisa boa sim por aí.

E não me refiro a bandas como White Stripes, que foi criada há 20 anos e acabou há sete, e The Killers, que apesar de ter nascido no século 21 já anotam 15 anos de estrada no currículo. Falo de grupos como o Alabama Shakes, Kongos, Foster the People, da novíssima The Sherlocks e Imagine Dragons (que muitos não curtem por fazer um som mais pop). A banda inglesa 1975, com referências oitentistas, a autraliana Tame Impala, a dupla britânica Royal Blood, a londrina Wolf Alice, a canadense The Strumbellas e a novaiorquina The Pretty Reckless, são outros bons exemplos. O Brasil de Dinho não fica atrás com Scalene, Boogarins, Badhoneys, Casaprima e O Terno.

Esses e outros nomes provam que o gênero se mantém na ativa. E que ainda está muito bem representado.

Que continuemos dando ouvidos a Plant.

 

Texto: Anderson Tissa

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