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Maternidade e prudência

A vida deve ser preservada e devemos aproveitar o Natal para cultivar o verdadeiro amor.

Foto: Pixabay

Chegamos ao mês do Natal e em vez do que o comércio nos faz imaginar, essa data não visa comemorar a chegada do Papai Noel. Objetiva, sim, é festejar o nascimento de Jesus Cristo e tudo de bom que ele representa.

Cristo nasceu em uma época sem recursos. Não existiam maternidades e a manjedoura, símbolo da humildade, ficou em nossa mente como a imagem maior da simplicidade, da beleza e da pureza que representa a vinda de uma criança ao mundo. No entanto, apesar do belo que a manjedoura nos impõe à mente, hoje, tudo mudou. O progresso humano levou o parto para dentro dos hospitais e assim evitou que milhões de mulheres e crianças morressem ou ficassem sequeladas nesse momento que devia ser apenas maravilhoso. Sim, em um passado não muito distante, a principal causa mortis de mulheres não era o câncer ou o infarto. Era o parto! A hospitalização das parturientes, graças a Deus, mudou essa situação. Milhões de mortes e tragédias foram evitadas e todos nós conhecemos histórias de partos que, mesmo com toda ajuda médica, foram extremamente complicados. Eu mesmo, na minha família, tenho uma série de exemplos de partos que teriam terminado muito mal se não tivessem ocorrido no interior de hospitais.

No entanto, o absurdo é a marca dos dias atuais! A vida fácil parece ter eliminado a prudência e o bom senso da cabeça das pessoas e há um forte movimento pela retirada dos partos dos hospitais. Muitas mulheres estão preferindo ter seus filhos em casa, cercadas de parteiras e doulas. Tratam o nascimento de uma criança apenas como um evento social e acreditam que no parto delas nada, nunca, dará errado. Por fim, anestesiam a própria consciência enganando a si próprias dizendo que, se algo der errado, basta correr para um hospital que tudo será resolvido. Agindo assim, sem perceber, chegam ao absurdo de pensar que elas e suas doulas serão capazes de discernir o momento em que deve se desistir do parto normal. Ultrapassam a sensatez prevendo que sempre terão os meios de identificar complicações em um recém-nascido e que, nestes casos, terão o tempo necessário para levar a criança em risco até um hospital. Pior: essas ilusões são alimentadas na mente das mulheres atuais por movimentos ligados ao feminismo radical que é, na verdade, apenas um filhote raivoso do marxismo inconsequente. E esse movimento nefasto, como forma de marketing do absurdo, arrumou até um nome bonito para esse tipo de parto: “Parto Humanizado”! Só se esqueceram de dizer que tudo aquilo que põe em risco desnecessário a vida de mulheres e crianças devia, na verdade, é se chamar desumanizado.

Sejamos razoáveis: parto é um processo natural que, quando deixado apenas a cargo da “Natureza”, possui alta taxa de letalidade para as mães e para as crianças. Logo, a transformação desse processo natural em procedimento médico visou tornar a vinda de uma criança ao mundo algo muito mais seguro para ela e para a sua mãe. Mas o feminismo radical, embasado apenas em teorias sociais, joga isso tudo no lixo e defende a ideia de que o parto de uma criança é algo que pertence exclusivamente à mulher. Termos como “parto humanizado” (que muitas vezes, na prática, significa um parto em casa e sem segurança médica) e “parto roubado” (algo que ocorre quando um médico, para assegurar a saúde ou mesmo salvar a vida da mãe e da criança, altera o planejamento de parto feito pela parturiente) se tornaram bandeiras políticas do feminismo radical. O problema é que não existe “parto humanizado” sem segurança médica, tampouco existe o tal “parto roubado”. Existem duas vidas – mãe e criança – que devem ser preservadas e assistidas da melhor forma possível. Esta é a função do médico: garantir a segurança das vidas que estão em suas mãos. Nunca foi a de atender a caprichos de mulheres que resolvem decidir sobre algo que não diz respeito só a elas (um parto envolve diversos interesses que englobam também os da criança, os do pai e os da família dessa criança e os do próprio Estado). Sim, cabe ao médico, e não à mãe, a decisão quanto ao parto natural ou, por exemplo, a cesariana. Essa é uma decisão técnica que deve estar restrita a quem, de fato, estudou e capacitou-se para tanto e está apto a assumir as responsabilidades, incluindo as judiciais, pelos resultados que dela advenham. Além disso, há de se ressaltar que, se por um lado o parto em residências e o uso de parteiras e doulas possa ser útil em rincões do Brasil onde faltam médicos como, por exemplo, o interior do Amazonas, o mesmo não pode ser dito para as áreas mais estruturadas do território brasileiro. Mesmo que para a mãe corra tudo bem em um parto, existem distúrbios que, se não tratados a tempo, podem matar o recém-nascido. E o atendimento nesses casos pode ser bem ou malsucedido por uma questão de poucos minutos ou mesmo de segundos[1]. Logo, não cabe à mãe deliberar ter o parto em casa ou não, ou mesmo decidir quando entregar a criança aos cuidados médicos. Não é só a vida dela que está envolvida. Há outra vida que deve ter, pelo Estado, sua segurança garantida. O Estado brasileiro não pode tirar a guarda de uma criança dos seus pais quando a atitude deles põe em risco a segurança dela? Por que razão então, no parto (justamente o momento em que, de modo geral, a vida da criança está mais frágil), isso não ocorre e aceitamos procedimentos alternativos e irresponsáveis? O Estado brasileiro não impõe regras para certas condutas usuais como, por exemplo, a condução de veículos automotivos, visando preservar a saúde e a segurança das pessoas? Se a resposta é sim, por que somos obrigados a aceitar que em um parto, que envolve a segurança de uma mãe e de um terceiro (seu filho), possa ser diferente? Cabe a mulheres que não possuem competência técnica em Medicina decidir onde ter um bebê, em que condições e até o momento de entregar a criança recém-nascida aos cuidados médicos? A criança, independentemente da imprudência da mãe, não tem direito a ter garantida segurança médica em seu nascimento?

O interessante nessa situação é que as mesmas pessoas que pensam que cabe apenas à mulher tomar essas decisões defendem que, se algo der errado no parto e a criança e/ou mãe ficarem com sequelas e/ou incapazes, caberá ao Estado sustentar as duas pelo resto da vida. Tendem também a culpabilizar o governo, o médico da emergência que não conseguiu contornar a situação ou qualquer outra pessoa pelas tragédias advindas de “partos humanizados” malsucedidos que tenham sido realizados em casa. Como a culpa é muito grande, raramente se responsabilizam pelas consequências dos seus atos e das suas escolhas. Ou seja, o bônus (muito pequeno diante dos riscos) se tudo der certo é só da mãe (nunca se provou que um parto em casa e alternativo traga bônus às crianças), mas o ônus, se algo der errado, pertence a terceiros (criança, Estado, pai e família da criança).

Alguns podem pensar que sou polêmico nesta coluna. Ledo engano! Falo apenas de amor. Do amor prudente, pois quem ama não arrisca. A vida deve ser preservada e devemos aproveitar o Natal para cultivar o verdadeiro amor. E ele, o verdadeiro amor, é prudente. Ele sacrifica desejos pela garantia de segurança dos seres amados! Ele abandona o romantismo de partos em casa pela certeza de um sorriso inocente e saudável nos braços de uma mãe!

Texto: Pedro Hanks

[1] No primeiro minuto após o nascimento é extremamente recomendável que o recém-nascido seja submetido ao teste de Apgar que visa verificar se ele está em condições normais. Caso não esteja, o socorro médico deve ser imediato, pois cada segundo de atraso pode significar sequelas ou mesmo o óbito da criança.

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