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As canções que embalam as ruas e os boulevards

Andar pelas ruas de Paris tem uma aura de liberdade imensa. Aliás, acredito que caminhar em qualquer lugar ao ar livre, em qualquer parte do mundo, traz em si essa sensação de promenade constante. Vislumbrar uma bela arquitetura, a arborização dos parques ou simplesmente as pessoas andando rapidamente pelas avenidas e boulevards é uma forma de contemplar desapressadamente o visual urbano das cidades em geral.

Foto: G. Paiva

Uma verdadeira dança se instala nos meus sentidos quando faço um jogging pelas ruas ao som de Julien Doré nos fones de ouvido. Sentir o vento no rosto e o frescor das pequenas e finas garoas nos dias nublados ouvindo “Le lac” é uma das melhores sensações que descobri por aqui.

O autor do álbum “&” foi descoberto no programa “Nouvelle Star”, na edição 2007 – a versão francesa do programa “Ídolos” exibido no Brasil. Cantor, compositor e ator, Julien Doré está em turnê com seu mais novo álbum e fará duas apresentações no AccorHotels Arena em Paris neste mês de dezembro, já contando com uma legião de fãs desde o prêmio do público no reality show mencionado.

Outra celebridade muito querida que descobri nas andanças pela cidade é o famoso cantor, e mundialmente conhecido, Johnny Halliday, que veio a falecer nesta semana aos 74 anos. Rendendo-lhe uma breve homenagem neste artigo, escrevo sobre esse grande artista que foi considerado o pai do Rock’n Roll francês e que causou uma comoção em toda a França pela grande perda para a música, tanto no cenário nacional, como mundial.

Johnny Halliday ainda embala as lembranças jovens de meus pais, como tantos de sua geração, com suas canções célebres como a versão francesa de “Let’s Twist Again”, intitulada em sua versão “Viens danser le twist”, que se tornou disco de ouro. Johnny Halliday, que arrebatou corações de várias mulheres (fãs ou colegas de trabalho), vinha lutando contra um câncer no pulmão e nesse dia 06 não resistiu. O país está em luto.

Mas a música sempre traz novos frescores para as ruas, capazes de embalar passeios, festas e lembranças das gerações às quais correspondem. Cantores novos como Vianney e Camille compõem o mesmo cenário em que Carla Bruni se apresenta. Com suas caixinhas de som portáteis, as pessoas andam pelas ruas ouvindo seus artistas preferidos e compartilhando com os demais transeuntes. E são canções que propõem uma alma suave e delicada de musicalidade, que trazem um diferencial ao que costumamos encontrar na cena musical internacional. A qual, por sinal, também nos apresenta excelentes colaborações e uma específica pulsão de vida que somente a música é capaz de provocar nas pessoas.

Mas a musicalidade francesa tem uma vibração especial. De Edith Piaf à Zaz, a sonoridade da língua que, mesmo falando, parece cantar, nos remete aos passeios pelo Senna ou nos canais, nos fins de tarde. Muito dessa “luz” da cidade vem de suas canções, célebres ou não. Como a tradicional “La vie em rose” cantada pela americana Grace Jones!

Mas neste cenário jovem francês, eu tenho uma predileção pela cantora e também atriz Louane, que ficou conhecida após a participação da edição de 2013 do “The Voice” francês e consolidou seu sucesso após ter participado no ano seguinte do filme “La Famille Bélier, cujo sucesso é até hoje celebrado no mundo todo.

Seu primeiro álbum, “Chambre 12”, de 2015, foi o mais vendido do ano na França e recebeu o título de Álbum Revelação do Ano em 2016. Agora em 2017, a cantora lançou seu segundo, intitulado com seu próprio nome, “Louane”, e já prepara sua turnê nacional para janeiro do próximo ano.

A canção mais famosa de seu novo álbum, “On était beau”, que faz um enorme sucesso entre os adolescentes, que encontro por aí nas promenades, também me contagiou. Acho que minha alma ainda conserva esse “quê de adô”, como eles dizem por aqui. E é muito bom!

Assim, neste embalo musical, seja nas corridas ao som de Julien Doré, ou no frescor da voz de Louane e suas letras sobre o cotidiano juvenil, a música me renova as energias. Seja nos Top 10 da TV pela manhã ou nos finais de tarde correndo pelo boulevard, não há como não se deliciar dessas pequenas delicadezas.

As canções, em sua arte viva, nos proporcionam, desde as caminhadas pela manhã aos encontros com os amigos nas noites sábado, um magnetismo dançante no espírito. E isso leva aos sentimentos mais vigorosos ou aos mais introspectivos. Sempre a música nos remete a uma outra atmosfera, e torna os encontros e as corridas, o trabalho e o descanso, o namoro e a contemplação muito mais interessantes, muito mais charmosos e, claro, mais felizes. Vive la chanson! Vive la vie!

 

Texto: Juliana Schroden
Produtora Cultural e doutoranda em Estudos Literários pela UFU. Realiza estágio pelo Programa PDSE/CAPES na Université Sorbonne Nouvelle-Paris 3. É autora da obra infantil “A aventura de Abaré” (2012), publicada pela editora FTD e do livro de poemas “ImaRgens Urbanas” (2011), pela Lei de Incentivo da Divisão de Culturas da Universidade Federal de Uberlândia.

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