Entrevista Expresso Foco

Orlei Moreira completa 50 anos de carreira e fala sobre as mudanças no mundo da comunicação

Dono de uma das vozes mais marcantes do jornalismo local, Orlei foi um dos primeiros apresentadores de telejornal de Uberlândia, na primeira emissora de televisão do interior brasileiro, a TV Triângulo. Em entrevista a O JORNAL de Uberlândia, ele contou sobre o início da carreira, os primeiros passos da TV e a influência que a mídia teve no desenvolvimento da cidade. Orlei também falou em primeira mão sobre seus projetos profissionais.

Foto: Mauro Marques

Como foi o início da sua carreira? Por que você escolheu o jornalismo?

Eu sempre gostei muito de rádio. Meu pai era marceneiro, tinha oficina e a gente ouvia rádio direto. Isso, quando menino. Eu fui servir o Exército em Brasília e, na volta, quando eu dei baixa do Exército, tinha um concurso em uma rádio, um teste para locutor. Isso em 1967. Eu fiz o teste e passei. Foi na Rádio Cultural e Educacional de Uberlândia, uma rádio de um grupo espírita. Dessa rádio eu fui para a Rádio Bela Vista, depois para a Cultura. Na época a TV Triângulo comprou a Rádio Cultura e eu fui direto para a TV, e lá comecei minha carreira como jornalista. Era uma época muito difícil, que a gente aprendia fazendo, você não tinha parâmetro. A cidade era pequena, ainda. Quando o grupo da TV foi ao Rio de Janeiro, acertou com a Globo, que estava acabando de ser criada, antiga TV Rio – propuseram aos donos da TV Triângulo rodar aqui a programação deles, só da TV Globo. E a emissora foi a primeira afiliada Globo do Brasil, o embrião da rede. Foi aí que eu comecei realmente a fazer jornalismo. Fazíamos estágios e cursos no Rio e em São Paulo. Tinha Cid Moreira, Glória Maria, Chico Pinheiro, inclusive com quem tenho uma grande amizade.

Foi uma época em que o jornalismo estava começando, tinha muitos programas de auditório, aquela coisa enlatada, mas o jornalismo mais sério começou com a Globo. E eu entrei nessa onda, fazendo cursos e aprendendo. Era tudo diferente, a montagem das matérias era muito complicada, não tinha o que inventar, era tudo ao vivo. Foram 27 anos na TV Triângulo e eu ainda presto serviço lá até hoje, na TV Integração.

 

Como você vê a comunicação hoje? Esse avanço tecnológico, todas essas mudanças foram benéficas para o jornalismo?

Na nossa época a gente fazia a apuração das matérias naturalmente, você conversava com as fontes direto, olho no olho, ou pelo telefone; você tinha a veracidade das notícias. Eu acho que o Google da vida, a internet de maneira geral emburreceu um pouco o jornalista, que ficou preguiçoso. Qualquer informação que você quer hoje, você digita e pronto, tem várias opções, vários significados, ao passo que antigamente você tinha que pegar o telefone e correr atrás. A mídia ajudou muito a difundir, às vezes, notícias irreais. E aí que vem a competência do jornalista para checar, porque o grande defeito das redações é a falta de apuração.

 

Tem algum acontecimento marcante na sua trajetória, alguma memória que você queira dividir com a gente?

Têm vários casos. Teve um relacionado à segurança, um problema que enfrentamos até hoje. No começo da década de 80 nós desmontamos uma quadrilha de roubo de carros aqui de Uberlândia. A Polícia fez vista grossa e nós insistimos na matéria e conseguimos desmontar. Um repórter nosso conversou com um patrulheiro lá de Cuiabá, que disse ter visto carros roubados, com placas de Uberlândia, em Rondonópolis. Esse repórter nos falou, eu pedi para a TV Centro América, afiliada da Rede Globo, para fazer as imagens dos carros para a gente. E aí liga dali, liga daqui, descobrimos a quadrilha de roubo de carros. Foi uma epopeia, tivemos que ir para o Mato Grosso. Um tal de Eugênio, que era acusado, entrou com uma ação contra a gente. Foi uma operação que demorou mais de um mês. Entrevistamos o DOPS, que seria a Polícia Federal hoje, e esse cara abriu o jogo e denunciou quatro delegados daqui que estavam envolvidos na operação, no roubo de carros. E foi a grande matéria da época, sempre com o apoio do Tubal Siqueira, que gostava de jornalismo investigativo. A matéria saiu até no Fantástico.

 

Na sua percepção, o que mudou em Uberlândia, de quando você chegou aqui até os dias atuais?

Eu cheguei aqui muito menino, comecei a notar a cidade bem depois. Fiz o ginásio aqui, fiz faculdade, fiz Direito na UFU. Não tinha curso de Jornalismo, somente em Uberaba. E na época o curso era um luxo, não era muito necessário. Logo começamos a receber profissionais de fora, que começaram a dar um ar mais acadêmico ao nosso trabalho.

Dois fatores tiveram uma importância muito grande no desenvolvimento da cidade: primeiro, a chegada da UFU e, depois, a TV. A TV mexeu com os brios das pessoas. Era a primeira emissora do interior, afiliada Globo, então tomou aquele ar de cidade grande.

 

Orlei, uma característica sua muito marcante, sem dúvida, é a voz. Ela teve um peso na sua carreira? Abriu portas pra você? Afinal, a voz é um atributo importante no jornalismo de rádio e TV, não é mesmo?

Já foi algo importante, hoje não é mais. Essa coisa de voz grave ainda deve funcionar em algumas rádios, se bem que rádio hoje é mais gritaria. Mas deve ter me ajudado em algum momento, nos primeiros testes, mas foi algo natural.

 

E, para finalizar, como está sua vida hoje? Muitos projetos?

Ainda desenvolvo um trabalho na TV Integração, como prestador de serviço, no CEDOC; tenho a Prelo Comunicação, sou sócio na Prelo; e no ano que vem (te digo em primeira mão) devo fazer um trabalho na TV Universitária. A Renata Neiva me convidou para fazer um programa de debates, além de um programa de entrevistas, na Rádio Universitária. Não podemos parar.

 

Texto: Maria Clara Faria

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