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RetrospecTissa: Os 15 melhores álbuns de rock do ano

Roger Waters no Staples Center/EUA.

 

2017 está no bico do corvo, mas antes do enterro resolvi montar uma lista com os lançamentos que mais gostei deste ano.

Anderson Tissa, autor da coluna “Vida Longa, Baby”.
Imagem: Douglas Luzz

Sendo extremamente sincero, escrevi esta lista por pura falta de assunto. Sem nenhuma ideia e pauta bacana, parti para o mais do mesmo e ranqueie os 15 melhores discos lançados em 2017. Ressalvo que os álbuns que você verá abaixo são unicamente de minha preferência. A música é uma arte assustadoramente subjetiva e, com toda certeza, muitos discordarão. E assim espero.

Por esta coluna tratar exclusivamente de rock n’ roll, outros gêneros não serão citados. Este é o único motivo de Vai Passar Mal e Vai Passar Mal Remixes, de Pablo Vittar, não estarem ranqueados. Mas quero deixar minha menção honrosa aos rappers Djonga, Rincon Sapiência e Criolo. O primeiro é mineiro e lançou o álbum Heresia, que discute racismo, faz diversas críticas sociais e a capa faz referência ao cultuado disco Clube da Esquina, de Milton Nascimento e Lô Borges. Já Sapiência surpreendeu geral com Galanga Livre, o álbum, disparado o melhor do ano no Brasil, narra à história de Galanga, escravo responsável pelo assassinato de um senhor de engenho. E Criolo que por ora colocou o rap na gaveta, apostou no samba de Espiral de Ilusão e se tornou o mais novo xodó dos churrascos de fim de semana.

Outros que valem a pena ouvir é o Deixa Quieto (releitura de Nevermind do Nirvana) da Macaco Boing, Ottomatopeia do pernambucano Otto, Beijo Estranho da Vanguart, No Dia dos Nossos do Coruja BC1, Japanese Food de Giovani Cidreira, Música de Brinquedo 2 do Pato Fu, Esú do Baco Exu do Blues, Drunk do americando Thundercat, Lá Vem a Morte do Boogarins, e Fluxo do Zé Bigode.

Também quero mencionar que aquele disco que você gostou tanto e não apareceu na lista, não quer dizer que eu não tenha gostado, talvez eu nem o conheça. Se fosse uma lista de 50, provavelmente, os álbuns mais conhecidos estrariam, mas são somente 15. Numa lista com 15 nomes é preciso afunilar ao máximo e escolher realmente os que mais agradaram. Por isso, deixo antecipadamente minhas sinceras desculpas por não incluir Finally It’s Christmas, dos Hanson, que para o meu amigo Fernando Prado é a maior banda de rock de todos os tempos.

Vamos à lista.

15º) Gorillaz – Humanz

Começo com o grupo virtual Gorillaz. Seu álbum Humanz está na 15ª posição da minha lista. Do ponto de vista artístico é muito bom, porque o disco quebrou as expectativas, que conta com uma penca de convidados e cada uma das 19 faixas tem a influência desse convidado. Ou seja, Humanz causa uma surpresa atrás da outra. Damon Albarn foi corajoso, não se prendeu a rótulos, entregou um álbum nada cansativo e com sonoridades diversas. Bacanudo!

14º) Gustavo Telles & Os Escolhidos – Gustavo Telles & Os Escolhidos

Gustavo Telles era integrante da importante banda instrumental Pata de Elefante. Agora no seu terceiro álbum solo, que leva seu nome e o nome do grupo que o acompanha, o ex paquiderme apresenta mais sentimento do que seu swing marcante na bateria da Pata de Elefante. O cara assumiu os vocais e despeja em seu rock n’ roll, amor, paixão, desilusão, abandono e outros assuntos marcantes do nosso cotidiano, misturados ao folk, country e blues. Por isso, o disco Gustavo Telles e Os Escolhidos ficou na 14ª posição.

13º) Steven Wilson – To the Bone

Monstro. Steven Wilson é dos melhores do rock progressivo. Sua atmosfera sombria na qual construiu seu nome é certamente prevalente pela conclusão do 13º colocado. To the Bone é um disco mais pop, porém a marca do prog melancólico de Wilson está conservada. É um álbum profundo, com momentos alegres, animados que se revezam na insensatez criativa desse gênio, que neste disco chutou o balde.

12º) Neil Young – Hitchhiker

Gosto muito de Neil Young. E seu mais recente álbum Hitchhiker, lançado em setembro passado, me fez gostar ainda mais do mestre do folk rock. Este disco foi gravado numa única madrugada de 1976, regrado a muito álcool e drogas, e saiu somente em 2017. É um disco acústico com clássicos do cantor e inéditas. O 12º da lista é excelente para se ouvir à meia luz, sozinho e tomando alguma coisa, de preferência um uísque.

11º) Scalene – magnetite

magnetite (se escreve minúsculo mesmo) é uma mistura interessante entre alguns dos elementos já conhecidos da discografia do Scalene em conjunto com temperos sonoros brasileiros, esse é um projeto corajoso e original. 11º lugar para a banda candanga.

10º) Greta Van Fleet – From The Fires

Difícil dizer isso, mas Greta Van Fleet, banda formada em Michigan pelos irmãos Kiszka, mais parece o Led Zepellin rejuvenescido. Ao se deparar com a sonoridade dos americanos a associação com o som de Jimi Page e Robert Plant é mecânica. A décima posição fica com From The Fires. Agressivo, potente e de clima setentista, um verdadeiro álbum de hard rock.

9º) Arcade Fire – Everything Now

O nono colocado Everything Now insere elementos que já estão surfando o hype musical há algum tempo. Mas e daí? A fórmula parece funcionar para o Arcade Fire, que entrega algo diferente e que precisa de muitas audições para que, possivelmente, todas as ideias por trás de cada um dos momentos explorados na trajetória possam ser absorvidos.

8º) André Sampaio – Alagbe

O terceiro brasileiro da lista é André Sampaio. O guitarrista, ex membro da banda de reggae Ponto de Equilíbrio, viajou para três países africanos. Quando retornou criou o álbum mais criativo e original, que visita os ancestrais do Brasil, da última década. Alagbe mistura o som dos orixás com rock n’ roll. Oitavo lugar para o afro rock.

7º) Chris Stapleton – From a Room: Volume 1

Chris Stapleton é outro sujeito que não sai das minhas playlists. O americano, dono de uma voz marcante, agrada os mais tradicionais e a galera mais jovem que procura por southern rock. From a Room: Volume 1, sétimo da lista, segue a mesma veia de seu primeiro disco Traveller, mas soa mais emotivo e esparso.

6º) Gov’t Mule – Revolution Come…Revolution Go

Warren Haynes e Allen Woody eram conhecidos por terem sido integrantes da Allman Brothers. Em 1994, ambos se uniram novamente e fundaram o Gov’t Mule. De lá pra cá são 15 discos lançados, e agora o guitarrista e o baixista retornam com críticas a Trump, respondem as tragédias urbanas e ainda falam de amor em Revolution Come…Revolution Go, que ficou com a sexta posição.

5º) U2 – Song of Experience

O U2 provou há muito tempo o seu valor. Apesar de ser uma das maiores bandas da história do rock, o grupo passou desconfiança depois de fracassar com No Line on the Horizon e Songs of Innocence. Porém a fase ruim parece ter acabado, Bono e cia voltaram à boa forma e acertaram em Songs of Experience. Gostei do álbum todo, mas comece ouvindo a música de trabalho do disco You’re The Best Thing About Me, que tomou conta das rádios do país. Quinto lugar para os irlandeses.

Outro grande nome do rock, Roger Waters, figura na quarta posição. Depois de 25 anos, o ex Pink Floyd, volta com fôlego total em Is This The Life We Really Want?, um álbum de sonoridade tipicamente floydiana e com as questões políticas de sempre, atual como nunca.

Gregg Allman nos deixou este ano, mas antes de partir deixou mais uma obra prima. Este fora-da-lei do rock estava com câncer, e sabendo que a areia escorria cada vez mais rápido pela ampulheta, botou de vez a mão na massa. O resultado foi Southern Blood, um disco acima de considerações. Ao escutar o tempo parece parar, suas memórias mais profundas são evocadas, a carga emocional é grande. Tocante. O terceiro lugar é mais que obrigação ouvir, no repeat.

O que dizer sobre um álbum produzido por Eric Clapton e Barry Gibb? Esse disco permaneceu quase 50 anos no limbo, sendo lançado somente este ano após uma longa batalha judicial. P.P. Arnold era vocalista de apoio da banda de Ike Turner e soltou a voz para gravar The Turning Tide no final dos 60. O registro trás 13 faixas contagiantes, incluindo uma releitura de You Can’t Always Get What You Want, clássico dos Rolling Stones. Ou seja, motivos não faltam para ouvir o segundo lugar.

Me And That Man é um duo formado por Adam Darski e John Porter. Esta dupla entrou no estúdio, mesmo sem saber, para criar o melhor disco de 2017. Songs of Love and Death é carregado de influência de gêneros como o country, o folk e o blues. É um álbum dono de uma beleza sombria, um imenso trabalho de composição traduzido em um disco para ser lembrado por anos a fio. Uma pena Johnny Cash não estar vivo para ouvir.

Enfim, ouvi todos os álbuns mencionados nas plataformas de streaming e curti muito. Num período em que se reclama tanto das rádios por tocar o mais do mesmo, não me parece tão difícil buscar outros sons. Para deixar mais fácil, selecionei uma música de cada disco ranqueado e montei uma playlist. Basta dar play e aumentar o volume.

Que em 2018, você ouça mais música.

Texto: Anderson Tissa

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