Comportamento Destaque Expresso

Janeiro Branco

Janeiro Branco simboliza, em boa medida, a luta pela saúde mental.

Foto: Pixabay

Esse tema pode parecer distante da maior parte das pessoas, mas isso é um mero engano: a depressão já é a segunda doença que mais incapacita no mundo e em breve deve ultrapassar os problemas cardíacos e se tornar a primeira. Mais de 50% das mulheres com mais de quarenta anos e sem filhos, perfil social cada dia mais comum, sofrem com distúrbios mentais como, por exemplo, depressão, ansiedade generalizada, problemas de sono etc. Essa triste estatística levanta uma reflexão mais profunda, mas que, infelizmente, não será tratada neste texto: a maternidade, ao invés do que prega o feminismo radical, não aprisiona a mulher, mas, sim, a liberta do que há de pior: o desequilíbrio mental.

Mas voltemos ao tema de nossa coluna: o problema é que, se há uma área da Medicina que historicamente sempre foi maltratada no Brasil, esta foi a Psiquiatria. Circulou sempre entre o oito e o oitenta: primeiro, o excesso de internações e maus-tratos que personificam a imagem do Hospital Colônia de Barbacena. Depois, a luta antimanicomial que rapidamente se transformou em uma luta anti psiquiatria e, em sua sanha louca de revanche, fechou a maior parte dos leitos psiquiátricos do País e deixou, assim, milhões de brasileiros sem a assistência médica necessária. Infelizmente, muitas das vítimas da luta anti psiquiatria (desculpem-me pela sinceridade, mas chamarei o movimento antimanicomial pelo seu nome verdadeiro) hoje são apenas estatísticas de óbitos que poderiam ter sido evitados. Não o foram, pois, como quase todos os leitos psiquiátricos do Brasil foram fechados, esses doentes não receberam o atendimento médico necessário – internação – e acabaram se suicidando ou, durante um surto psicótico, se acidentando e assim perdendo a existência. Sim, a luta anti psiquiatria, na sua irresponsabilidade ideológica barata, já matou muito mais do que, em seus piores dias, o triste Hospital Colônia de Barbacena sonhou em matar. Pena que não haja estatísticas exatas a levantar esse problema. Só sabemos que mais de 11 mil pessoas se matam por ano no Brasil e que esse número não para de crescer (a uma média entre 2 e 4% ao ano). Quanto às mortes provenientes de surtos psicóticos ou de fases maníacas de bipolares, não temos as menores estatísticas. Mas elas, também, devem chegar às milhares por ano.

Infelizmente, esse é o resultado inevitável da política irresponsável de fechamento de leitos psiquiátricos hospitalares, pois o tratamento de uma depressão grave ou de uma crise psicótica de um esquizofrênico demora, no mínimo, três semanas para fazer efeito e, se o doente já medicado não for internado nesse período, a chance de ele se suicidar ou acidentar é enorme. Só que, como já dito, não há mais leitos para internar nem uma parte mínima de todos os casos graves. Ponham, portanto, boa parte dessas mortes na conta dos ativistas anti psiquiatria e nos gestores governamentais que praticamente acabaram com os leitos psiquiátricos no País. Um erro do passado – Barbacena – não justifica outro ainda maior no presente: a quase completa falta de leitos psiquiátricos no País.

Alguns ativistas da luta anti psiquiatria dirão que, como contrapartida ao encerramento dos leitos psiquiátricos, boa parte do dinheiro que deveria ter sido investido neles foi revertida para os Centros de Assistência Psicossociais, os vulgos CAPS. No entanto, os CAPS não estão preparados para receber internações e, portanto, são muito ineficazes diante dos, cada vez mais corriqueiros, casos graves. Há outro problema: os CAPS, só parcialmente, tratam a doença mental como ela deve ser tratada: como doença. Como o próprio nome já diz – psicossocial – há uma forte socialização da doença mental na filosofia dos CAPS e, por tabela, uma quase negação do seu caráter biológico. Por causa disso, em suas estruturas, são cada vez mais raros os psiquiatras e mais abundantes os psicólogos e os terapeutas ocupacionais. Nada contra essas profissões, mas elas não tratam doenças mentais. Elas, no máximo, lidam com distúrbios psicológicos. A tragicômica situação que isso cria só pode ser realmente dimensionada através de comparações. Vamos a elas: se essa bisonha política fosse adotada na cardiologia, uma pessoa sofrendo infarte ou em grave patologia cardíaca não poderia ser internada e no momento de crise teria de ser atendida por psicólogos e terapeutas ocupacionais, os quais, incapazes de medicá-la, iriam tentar conversar e realizar trabalhos manuais com o doente para debelar seus estresses, pois isso piora as doenças do coração. Ridículo, mas, infelizmente, é exatamente assim que o doente mental é tratado no Brasil. Creio que em um futuro remoto, quando a civilização ocidental se livrar do câncer que as ideologias marxistas colocaram em seu organismo (sim, a luta anti psiquiatria também é filhote nefasto da Esquerda marxista), essa prática será considerada como tortura. Com isso não afirmo que psicólogos e terapeutas ocupacionais sejam torturadores, nem tampouco digo que suas especialidades não possam ser úteis. Apenas afirmo que negar tratamento médico a um doente grave em risco de vida e, no lugar disso, proporcionar a ele apenas conversas e trabalhos manuais é tortura. Repito: se no passado erramos em Barbacena, na atualidade erramos muito mais ao negar a doença mental!

Porém, felizmente, essa situação começa a mudar. Depois de treze anos negros em que os ativistas anti psiquiatria e anti doentes mentais tomaram de assalto as políticas públicas de saúde mental no Brasil, começam a surgir sinais de positivas mudanças. Sob pressão da Associação Brasileira de Psiquiatria, que monitorou a crescente falência da Saúde Mental no País e verificou o vertiginoso crescimento de casos graves (casos simples, sem tratamento adequado, se tornam graves), o governo, mais livre de ideologias nocivas, começa a apontar na direção de um novo caminho. Além de uma série de medidas menores, mas igualmente importantes, o governo brasileiro não só irá parar de fechar leitos em hospitais psiquiátricos, como também irá incentivar a abertura de alas psiquiátricas em hospitais gerais. O constante aumento na taxa de suicídios demonstra claramente a necessidade de medidas como essa. Vamos ver se essa luz no fim do túnel se transforma em salvação de verdade. Contra nós, lutando contra o Brasil e contra os seres humanos e sua humanidade que inclui em si, biologicamente, a doença mental, estão todos os ativistas anti psiquiatria. Infelizmente, o lado de lá ainda é muito forte: há uma poderosa ideologia e um terrível partido político que tenta voltar ao poder e os ampara. Se eles retornarem ao Palácio do Planalto, tudo será definitivamente perdido.

Que o mês de janeiro de 2018 seja realmente branco e simbolize uma verdadeira mudança de postura de nossa sociedade em relação à doença mental. Precisamos muito disso! Precisamos tratar nossos doentes mentais como verdadeiros seres humanos. E isso significa não negar a eles o direito ao atendimento médico especializado e à internação quando essa se fizer necessária.

 

Texto: Pedro Hanks

Notícias relacionadas