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Adeus em silêncio para Dolores O’Riordan

Com um voz dessas, ela deveria ter morrido nem que seja de susto. Para que algum privilegiado pudesse ter a sorte de ouvi-la pela última vez.

Anderson Tissa, é jornalista, publicitário e autor da coluna “Vida Longa, Baby”. / Imagem: Douglas Luzz

Eu achava a voz dela incrível. Nos anos 90, ouvia demasiadamente. Tinha até uma quedinha por ela. Era uma mulher bonita, com certeza, mas o que mais me atraía era sua voz. Cheia de requebros e efeitos. Suave quando precisava ser, como na canção Ode To My Family, e forte e poderosa em outros momentos, como em Salvation. Sensível, elegante e também feroz. Era sim, uma voz notável. Nascida para cantar.

Dolores se foi. Sua obra fica. Para mim este é o legado de um artista. Ser lembrado por grandes feitos. E não ir para o túmulo com músicas esquecidas e ridicularizadas. Dolores não é maior que um Kurt Cobain, estava patamares abaixo. Não era uma gigante do rock, mas vendeu mais de 40 milhões de discos. Como não se curvar por tamanha conquista?

Ela merece ser lembrada pelo que fez. Imortalizou sua voz em Zombie. Ninguém vai fazer melhor. Pelo menos com esta música não. Estou rasgando a seda por saber que não é nada simples estourar hits como Dreams e Linger. O melhor ainda é ser reconhecida pela voz. Única. As introduções das músicas dos The Cranberries deveriam ser somente com sua voz, creio que seriam reconhecidas em muito menos tempo.

Quando ela deu um tempo no grupo, eu já não a ouvia muito. Mas vez ou outra estava lá revisitando sua obra. Como hoje. E a cada música, vou tendo ainda mais certeza da beleza da sua voz. Parece que a admiração aumenta a cada nota.

Dolores partiu subitamente. Em silêncio talvez. Um desconsolo por inteiro. Com um voz dessas, ela deveria ter morrido nem que seja de susto. Para que algum privilegiado pudesse ter a sorte de ouvi-la pela última vez.

Perdas são ruins. Principalmente quando se trata de uma artista que você realmente admira. Apesar disso, estou satisfeito. Por saber que minha geração escutou Dolores.

Texto: Anderson Tissa

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