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André Sampaio expressa a força visceral da guitarra no seu afro-rock

André Sampaio lança Alagbe

 

Alagbe é um álbum que resgata sonoridades e a herança africana, com a guitarra no primeiro plano

 

Anderson Tissa é jornalista, publicitário e autor da coluna Vida Longa, Baby / Foto: Douglas Luzz

Por pura falta de assunto acabei conhecendo um grande talento da nossa música e um sujeito com a alma cheia de humildade. Para quem não sabe, em dezembro passado, decidi fazer uma lista, porque estava sem pauta, que é totalmente específica ao meu gosto, com os 15 melhores álbuns de rock de 2017. Alagbe, álbum do ex-guitarrista da banda reggae Ponto de Equilíbrio, André Sampaio, entrou na lista por estar entre os meus favoritos do ano anterior e o melhor da década do Brasil (de rock).

Pouco depois de publicar tive uma baita de uma boa surpresa. André Sampaio, só não comentou, como compartilhou o texto e agradeceu por estar entre os dez primeiros. Claro que trocamos mensagens e percebi o quanto o cara é camarada. Pensei em entrevistá-lo, lógico, pela sua carreira, pelo seu trabalho e por estar maravilhado pelo seu último álbum.

Alagbe é um disco de influências da música afro e rock n’ roll, pensado após uma viagem do guitarrista por Mali, Moçambique e Burkina Faso. Quando voltou da África, André Sampaio acrescentou sua brasileirice, incluindo referências do candomblé e capoeira, e criando uma obra cheia de ritmo com o punch da guitarra. É o tal afro-rock (que curti demais).

O cara resolveu me dar uma moral e aceitou bater um papo comigo sobre, na minha opinião, o seu melhor trabalho. A conversa ocorreu por e-mail entre os meses de dezembro (2017) até ontem (16). Confira o que rolou nos parágrafos abaixo. Axé!

Pequena pausa para comunicado importante. Antes de irmos para a conversa, gostaria de dizer para o pessoal da Greta Van Fleet que o espaço está completamente aberto. Sei que vocês ficaram atrás do André na minha lista, mas tentem não levar para o lado pessoal e fiquem à vontade em me escrever.

01 – Pelo menos para mim, você fez o álbum mais original do rock brasileiro da última década. E sabendo de suas origens, percebo o quão a nossa música é versátil e flexível. A mescla de ritmos deu uma sonoridade riquíssima ao disco. Por que escolheu o rock para esta mistura e como foi o processo criativo para chegar ao som de Alagbe?
Uau, muito obrigado mesmo pela primeira pergunta, já gostei da entrevista (risos). Brincadeiras à parte, me sinto feliz e honrado de receber esse retorno do disco! Na verdade, acho que foi um processo muito de me (re)conhecer enquanto guitarrista que sempre teve essa veia rock. Ouço rock dos anos 60 e 70 desde muito novo, e mesmo no reggae (com o Ponto de Equilíbrio) e no meu primeiro disco solo (Desaguou – 2013) eu já expressava essa força visceral da guitarra com os tambores. Nos últimos anos tive contato muito próximo com guitarristas e tocadores de cordas africanos (sobretudo do Mali e Burkina Faso) como Vieux Farka Toure, Bassekou Kouyate, Assaba Drame e Sekou Diarra e com eles vi que as guitarras clássicas africanas casam muito bem com drives, fuzz e distorções. Era algo que no reggae ficava limitado pelo estilo, mas no afro-rock encontrei o terreno fértil pra promover esse encontro de africanidades e brasilidades através de uma sonoridade potente.

02 – Como o Cris Scabello, produtor do álbum, contribuiu e influenciou na musicalidade afro deste projeto? Deduzo que tenha muito do dedo dele no álbum, por ser o guitarrista do Bixiga 70.
Sim, o Cris foi fundamental pra gente chegar nesse conceito e sonoridade. O som do Estúdio Traquitana (todos os discos do Bixiga 70) e a colaboração que ele tem com o Victor Rice que mixou de forma maestral o disco, até a masterização do Fernando Sanches (Estúdio El Rocha), seguiu um caminho muito bacana de unir timbres vintage e uma forma de tocar bem orgânica, com essa estética afro-contemporânea que ele tem muito contato por ser do Bixiga e por rodar muitos festivais de World Music mundo afora. Pra mim o principal foi o incentivo dele pra que eu assumisse esse lugar do alagbe guitarreiro, inclusive sendo sugestão dele não usarmos naipe de metais (algo quase onipresente na música afro-contemporânea brasileira) e deixarmos a guitarra no primeiro plano da parte instrumental. Com certeza esse olhar dele me deu toda segurança de fazer isso, vontade antiga.

03 – Juntamente com o Alagbe, o ano de 2017 contou com os lançamentos dos álbuns Esú, do rapper baiano Baco Exu do Blues, e Uni-Versos, do grupo Big Up, que também têm as religiões afro como conceito. Essas sonoridades estão muito distantes do meu mundo de roqueiro e por isso, pergunto: os elementos da música afro são usuais entre os demais gêneros ou, ano passado, houve um resgate desse estilo pelos artistas brasileiros?
Acredito que é um processo de alguns anos pra cá. Tivemos uma inserção maior da juventude negra nos espaços das universidades, projetos culturais e visibilidade da cultura de matriz africana no geral, o que ainda é bem limitado, mas foi sem dúvida um avanço principalmente no sentido do acesso. Estamos vivendo agora uma reação a essas conquistas, com muita mentalidade retrógrada se espalhando, e nós que somos povo de terreiro estamos sofrendo ataques diretos e cada vez mais covardes. Pra mim a arte e a música são ferramentas nessa missão de romper o preconceito e o racismo, Alagbe fala da vida e do nosso sagrado no cotidiano, pelo ponto de vista de uma pessoa de axé. Exigimos respeito e também procuro sair dos estereótipos e clichês que nos folclorizam pra mostrar que somos diferentes e diversos, mas na essência iguais.

04 – Por meio de uma pegada mais pop, o som afro chegou às rádios com a música Xangô (do álbum Uni-Versos), do grupo Big Up. Penso que seja uma conquista. Você vê alguma música de Alagbe rolando nas programações das rádios também? Ou esse não é o propósito deste trabalho específico?
Acho ótimo que as rádios estejam tocando músicas com essa temática e uma grata surpresa tem sido muitos DJs e rádios que têm tocado o disco. Acredito que em Alagbe chegamos numa roupagem mais pop do que o primeiro disco – só que um pop antropofágico que remete aos tempos de Chico Science e também de Gil nos discos Refavela, Refazenda – e isso com certeza têm ajudado a música a circular, embora eu não costume produzir pensando em como vai ser a aceitação das grandes rádios. Com certeza as rádios de internet, playlists e programas independentes de música (webtv e tv a cabo) tem aberto um leque enorme de opções pro público e fomentado uma cena autoral como há muito não víamos no Brasil. Hoje tenho dialogado muito mais com essas mídias e tenho vivido o retorno dessas trocas de forma muito bacana.

06 – Talvez pelos instrumentos de percussão, sempre associei o som das religiões afro ao samba. Sei que é uma visão muito limitada. Como você enxerga a música de uma maneira muito diferente da minha, conseguiu criar um álbum que me faz imaginar o Woodstock com um terreiro ao lado. Quando idealizou o Alagbe, chegou a pensar em como o público reagiria?
Adorei a imagem, até porque tem o show do Santana no Woodstock que tem uma onda de percussão muito forte (já fizeram comparações do meu som com o do mestre Carlos, o que pra mim é honra ENORME) e também o clássico show de Hendrix, né? Bom, pra gente no Brasil, pro senso comum, a herança africana é o que aprendemos ser África: o samba, capoeira, candomblé, maracatu, batuques no geral. É em parte uma verdade, pois existe uma diversidade enorme de africanidades pulsando em nosso hibridismo da diáspora, mas existe também uma riqueza enorme na cultura, arte e música africana contemporânea e meu trabalho é um mergulho e a busca de pontes entre essas Áfricas e Brasis atuais e ancestrais.
Na verdade é uma música feita pras pessoas dançarem e que tem um conteúdo de forte carga ancestral e sutil, por isso vejo pontes entre a busca pela expansão da consciência das décadas de 60 e 70 e o neo-psicodelismo com raízes ancestrais que vêm surgindo em muitos estilos. As pessoas se sentem tocadas profundamente mas também libertam muito de si através da dança, do canto, de participar de uma celebração. Acredito que quando conseguimos trazer os ambientes de Mali, Burkina Faso, Moçambique e outros lugares de África e Brasil que nos inspiram, quando a música nos transporta pra esses espaços e tempos, a mágica acontece.

07 – E como você reagiu quando finalizou o álbum? Conseguiu encontrar o som que havia imaginado?
Eu me emocionei várias vezes, de arrepiar mesmo ouvindo algumas músicas, chorar com outras… Pode parecer exagero, mas com esses 17 anos gravando discos, DVDs, viajando Brasil e mundo afora, o disco Alagbe é o que mais me dá orgulho, porque tem muito amor, verdade e superação ali. No processo entre a finalização e o lançamento minha Iyalorixá, a grande Mãe Beata de Iyemanjá, nos deixou e isso mexeu demais com todos nós, inclusive pelo fato do disco ser em sua homenagem. É com certeza uma obra que deixo pra algum dia se quiserem saber quem fui, por onde andei e o que fiz nessa vida.

André Sampaio e os Afromandingas, foto de Daniela Dacorso. centro do Rio de Janeiro, 10/04/2016

08 – Você lançou Alagbe há dois meses. Não vou te perguntar sobre projetos novos. Mas gostaria de saber se vai manter essa pegada ou vai explorar outros sons do Brasil em algum projeto futuro?
Pretendo seguir experimentando e aprofundando os mergulhos nas sonoridades da África do Oeste e de manifestações afro-brasileiras. A guitarra é também meu tambor e arma, junto com o berimbau e outros instrumentos que vamos nos aproximando. O mais bacana do caminho que tomei ao sair do Ponto de Equilíbrio em 2014 (banda que tenho o maior orgulho de ter fundado e feito parte por 15 anos e na qual ainda tenho grande família) é que o estilo do que toco é moldado pelo que me inspira. Afro-rock é um rótulo que sintetiza bem todas essas influências e que me liga a outros artistas como Chico Science, Hendrix, Santana, Ali Farka Toure e muitos outros que me tornaram o que sou hoje.

09 – O meu orixá é Ogum. Qual é o seu?
Sou filho d´Oxaguian, o Grande General da Paz, Senhor das Batalhas e do Inhame Pilado. Meu Pai simboliza o impulso humano de buscar a evolução constante e o domínio do meio material. Também tenho uma relação muito forte com Ogum, pois sou Ogan (guardião) dele, e falo muito dessa relação na música Alagbe.

10 – Claro que você sabe que 2018 é o ano regido por Xangô. Ou seja, a justiça irá prevalecer para todos. Sendo muito sincero, o que espera colher com Alagbe?
Pois é, essa coisa do Orixá que rege o ano vemos da seguinte forma: cada casa faz um jogo e o(s) Orixá(s) que rege(m) o ano são pra os filhos daquela casa, praquela comunidade, entende? Por isso vemos diferenças entre os jogos das casas e isso não quer dizer que alguém errou, mas é uma concepção diferente da astrologia por exemplo que é uma ciência exata de acordo com o céu que é o mesmo pra todo mundo. Enfim, (risos), no meu axé são outros os orixás regentes esse ano, mas o que espero é que sigamos firmes e fortes no meio dos desafios que vem pra nos testar, inclusive nossa sanidade mental. Que os conflitos que se anunciam não tirem nosso foco e que venham pra decidir, que é o que boa parte das previsões concordam. Pro meu disco Alagbe e pra minha carreira, sinto que é um momento muito forte de se firmar, de tornar conhecido esse trabalho e colher os frutos desses anos de dedicação e ganhar fôlego e mais força ainda pra seguir crescendo e conquistando espaços, promovendo encontros e transformação. É o que espero e pelo que estamos lutando com muito amor e verdade.

11 – Nos vemos em Uberlândia em 2018?
Opa, com toda certeza!! Inclusive já tivemos convites pra tocar aí e sinto que o momento é super propício, inclusive com a repercussão linda que suas resenhas estão tendo pra gente!

12 – Fique à vontade para deixar alguma mensagem ou incluir alguma informação que ache relevante.
Fico muito agradecido e feliz de poder falar mais do meu trabalho, do disco Alagbe e sobre temas tão importantes que são fundamentais pra ele ser o que é. Entendo o momento que atravessamos enquanto humanidade como um momento de transformação, de crises e conflitos que se apresentam pra que possamos transmutar (parafraseando meu mano BNegão) as energias que já não tem porquê serem mantidas e abrindo espaço e terreno para o novo poder brotar. Podemos ver isso em vários âmbitos: no meio ambiente, na conjuntura político-social, nas relações pessoais, nas questões de gênero, étnico-raciais, religiosas, enfim, o mundo como conhecemos está passando por essa transformação e os desafios são muitos. Acredito piamente no poder da arte e da música em propor soluções e harmonizar essas relações e conflitos, em reaproximar distantes e construir pontes. Que possamos ter respeito ao próximo, a visões de mundo e formas de viver diferentes das nossas. Que o RESPEITO a diferença passe a ser tão fundamental quanto o ar que respiramos e a água que bebemos. E que possamos lutar por Justiça real e não essa campanha de ódio e linchamentos virtuais baseados em notícias falsas espalhadas pelas redes com o intuito de confundir e gerar mais discórdia e ignorância. Os períodos da humanidade onde a ignorância e os discursos de ódio se proliferaram foram seguidos por atrocidades e injustiças irreparáveis. Por isso meu sincero agradecimento pelo espaço e interesse em propagar mensagens reais e outros pontos de vista que não os convencionais.
Que possamos seguir buscando um mundo melhor para todos, porque não há paz verdadeira sem direitos iguais e justiça. Respeito aos ancestrais, respeito aos orixás, respeito! Obrigado.

Preciso dizer mais alguma coisa? Alagbe e outros trabalhos de André Sampaio estão disponíveis nas plataformas digitais. Ouça e #vidalongababy.

Facebook: @andresampaioafromandinga
Instagram: @andresampaio_mandinga

Texto: Anderson Tissa
Revisão: Pedro Ivo

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