Destaque Entrevista Expresso

Luis Alberto Pereira Jr. fala sobre o futuro e as transformações na Educação

Educador defende o ensino humanístico na formação do aluno e acredita que setor vai se tornar a principal instituição dos países nos próximos dez anos

Foto: Leonardo Leal

Com um extenso currículo na área de educação, o educador Luis Alberto Pereira Júnior tem a questão da infância como foco de estudos na pós-graduação. Tema que o leva a refletir sobre a sociedade em seus aspectos históricos, políticos e econômicos. Na entrevista a O JORNAL de Uberlândia, Pereira Júnior reflete sobre a profissão de professor, o avanço do ensino tecnicista e o futuro do setor.

Nascido em Araxá e residindo em Uberlândia há 23 anos, o educador é doutorando da UFU (Universidade Federal de Uberlândia), onde fez mestrado em Educação e graduação em História. Também e formado em Pedagogia, especialista em Psicopedagogia e Educação Especial.

Atualmente leciona do ensino fundamental à pós-graduação, em faculdades particulares de Uberlândia nas disciplinas Ética, Metodologia de Pesquisa, Gestão do Conhecimento, Sustentabilidade, entre outras. Confira abaixo, algumas das ideias defendidas por ele.

 

O que te levou a escolher a área de Educação?

Quando a gente é mais novo, essa escolha é muito difícil. Quando estamos na transição do ensino médio para o superior, existem alguns cursos que tem mais status, que dão um maior retorno financeiro, como Medicina, Engenharia, Direito. Já na área de Educação, na Licenciatura, são cursos que geralmente as pessoas não dão muita atenção. No meu caso específico sempre gostei do pensamento, de Filosofia, História, do conhecimento de uma forma geral.

O Pensamento, as concepções me atraiam mais, analisar e compreender o ser humano. E a História é uma disciplina muito diferente, que a gente estuda no ensino superior, da História que é ensinada na escola, uma vez que é uma história do fato, do evento, da data. Dentro da História a gente estuda, por exemplo na parte cultural, a questão das mentalidades, das representações, do imaginário, inclusive, sendo um objeto de pesquisa meu. Analisa-se muito o comportamento a partir dos indivíduos dentro de um contexto histórico. Assim, tem muito a ver com a psicologia.

Entender o contexto atual, dele por ele mesmo, é muito difícil. É preciso recorrer à História, porque somos resultado de um processo histórico, somos um sujeito construído historicamente. Vários pensadores ajudam a entender este ponto.

 

Qual o principal desafio para o professor atualmente?

Costumo dizer que na sala de aula, a maior dificuldade do professor não é o ensinar, o processo didático, mas a nossa dificuldade maior hoje é no relacionamento com o aluno. Devido às tecnologias, devido a um novo perfil de comportamento social, das crianças e jovens que não são tão mais passivos. Eles gostam de coisas mais dinâmicas e procuram ou desejam sempre na educação algo relacionado à realidade deles. Que tenha sentido e significado. Assim, o professor que vai para a sala de aula, e que tem resistência ou dificuldade em lidar com as novas tecnologias de informação e comunicação. Ele tem muita dificuldade de ensinar e estabelecer essa relação com o aluno.

O domínio da classe continua sendo uma das características mais importantes para ser professor?

Sempre falo o seguinte, de 100% do sucesso de uma pessoa, 25% é a parte técnica, do conhecimento e 75% é relacionamento e comunicação. A grande dificuldade dos professores é lidar com os diferentes perfis psicológicos presentes na sala de aula.

No meu caso específico, nos últimos dois anos, tenho feito um investimento muito grande em cursos voltados para o autoconhecimento, o autodesenvolvimento. Muito também voltado para coisas mais práticas como a PNL (Programação Neuro Linguística) e aplicar isso na sala de aula procurando me relacionar bem com o aluno.

Uma vez que quando se tem uma boa relação, não se entra em conflito, cria estratégias de relacionamento, se conquista a confiança, assim se desenvolve o afeto, que a gente chama na psicologia de rapport. Quando se tem um bom rapport, se consegue ensinar com muito mais qualidade e propor aos alunos aulas que têm a ver com a realidade deles. O aluno de hoje gosta de participar, não quer ficar sentado sendo ouvinte.  Acredito muito na educação em que o professor é o facilitador do processo, um mediador, e o aluno é o protagonista em tudo isso.

Qual a relação entre o que o professor aprendeu no passado e o que o aluno aprende hoje?

A dificuldade do professor é que ele vem de uma educação tradicional, em que centraliza o conhecimento, isso em todos nos níveis. O professor tem muita dificuldade de criar possibilidades para que o aluno possa ser protagonista do processo.

A indisciplina na sala de aula, que é um tema muito interessante. Ela pode ser, por exemplo, um aluno que tem dificuldade de aprendizagem, é melhor ser indisciplinado do que ser chamado de burro pelos colegas. Isso é um mecanismo de defesa dele. A indisciplina pode ser também uma resposta do aluno à didática do professor. O professor centralizador tem uma tendência maior de ter alunos indisciplinados. Desde a parte da estrutura física da escola à própria mentalidade da gestão e do corpo psicopedagógico ainda tem dificuldades e resistências em lidar com as novas tecnologias.

Um caminho para se lidar com a indisciplina, o primeiro passo é ver se o aluno tem alguma dificuldade de aprendizagem, o segundo é desenvolver uma pedagogia voltada para a mediação onde o professor não seja o centralizador do processo, e que procure usar um conteúdo para dialogar com a realidade que foi uma proposta do Enem.

Como você avalia a Educação no Brasil hoje?

A nossa educação hoje se a gente comparar com outros países, há uma tendência mundial em tornar a educação em tecnicista. A educação não pode estar restrita somente à prática voltada para o mercado de trabalho. Acredito muito numa educação humanista, porque estamos vivendo no Brasil uma crise moral.

Quando a gente volta a educação para um aspecto tecnicista, técnico, muito prático e não trabalhamos a parte da humanização. Igual a reforma da educação que defendeu que os alunos escolham as disciplinas. Não concordo com isso. Acho que a visão universalista é importante. Existe o ensino superior para que ele possa fazer suas escolhas lá, mas aqui é formação humana. Então, ao tirar as humanas, Filosofia, Sociologia, como a ditadura militar tirou você tira do indivíduo a capacidade de pensar e desenvolver a ética.

O ensino técnico, voltado para o mercado de trabalho é importante. Não tem como a gente fugir disso, mas ao mesmo tempo a gente precisa não deixar que o ensino humanístico se perca, porque aí complica mais a situação. Nas escolas, temos muitos professores que trabalham isso na sala de aula, pelo exemplo, pelo conteúdo. O professor no Brasil, de um modo geral, ele é muito esforçado, trabalha muito, é uma classe dedicada que se preocupa muito com o coletivo.

Do seu ponto de vista ocorre um conflito entre o que o estudante aprende na escola e o que ele vivencia em casa ou na sociedade?

A escola que traz um paradigma, mas quando chega em casa e na sociedade como um todo, se tem um outro tipo de comportamento. Essa cultura fora da escola é muito forte. Então a educação vai no sentido contrário do que a sociedade brasileira pratica.  Por isso que a escola é o espaço de transformação social. Se a gente pegar a história da educação em qualquer país, nos Estados Unidos por exemplo, a escola de Harvard é do inicio de 1600.

Os grandes países, as grandes culturas, sempre se preocuparam com o desenvolvimento de um ensino tecnológico, tecnicista mas também humanístico. No Brasil, a gente está muito distante de um ensino mais humanístico.

Ações de cima para baixo não muda isso. Acredito que a mudança começa na família e na escola. Duas instituições extremamente importantes e extremamente atacadas pela sociedade.

Como especialista da área como você as tendências na Educação?

Vou muito na contramão do que muita gente pensa. A educação, nos próximos 10, 20 anos será a principal instituição de qualquer país. Nós desenvolvemos a tecnologia de uma forma muito profícua, mas ao mesmo tempo, essa tecnologia muito poderosa, basta pensar a primeira e segunda guerra com 100 milhões de mortos, resultados da tecnologia e da ganância humana.

Então, as redes sociais, elas são interessantes, importantes, a tecnologia da informação também, só que ao mesmo tempo nós vivemos hoje do ponto de vista dos relacionamentos, o que o sociólogo Zigmut Baumann chama das relações líquidas. Vivemos uma crise dos relacionamentos, o número de pessoas no mundo que estão desenvolvendo depressão, transtornos de ansiedade, agorafobia, transtorno bipolar. Tudo isso por conta de uma sociedade extremamente ansiosa. Uma sociedade em que as relações se dão a partir de um consumo. A falta dessa fundamentação moral das relações está se perdendo.

Estamos numa crise. E aí as religiões estão se fortalecendo. Muitas religiões viciadas, com certo tipo de pensamento que muita gente rejeita. Por isso que você vê hoje as redes sociais Leandro Karnal, Mario Sergio Cortela, com um discurso moral, recorrendo a Nietzsche, Max Weber,  Sócrates, Platão, grandes pensadores. Na verdade, a Filosofia, ela dá sentido existencial para as pessoas. E isso está ligado à educação, acredito que a busca por uma educação mais humanística vai ter um salto muito grande nas próximas décadas. Isso é uma tendência e uma previsão de historiador.

Qual o foco da sua tese de doutorado?

Na graduação e no mestrado eu trabalhei sobre a infância marginalizada. Fiz uma análise do filme Pixote: a lei do mais fraco de Hector Babenco, para pensar as práticas de poder em relação à infância, e o quanto o filme contribuiu para construir e também descontruir representações acerca da marginalidade infantil. O que é ser marginal, ser mulher, ser homem é uma construção sócio histórica. Essas imagens e essas representações, todo tempo elas estão sendo reforçadas, ressignificadas, reconstruídas, através de diversos meios.

A criança numa análise Foucaltiana, o momento da infância, o estágio da infância é muito propício para o desenvolvimento de subjetividades, como o Foucalt traz adestrar. Então, é na Infância que você consegue construir o cidadão. Na infância, a criança é mais dócil, mas receptiva, tanto é que ao estudarmos a história dos Jesuítas. Eles tiveram dificuldade de catequisar os adultos, já as crianças, eles tiveram mais facilidade através da música. Hoje a gente vê que as formas de ‘catequização’ é o cinema e a música. Então, a gente se torna americano e a partir daí, passamos a consumir ideias e produtos a partir desse processo de ‘catequização’. São estratégias de poder.

No doutorado, eu continuo com a infância. Trabalho com o Neoliberalismo numa visão Foucaltiana. Para Foucalt, o neoliberalismo é um modo de governo. Um modo de gestão da vida e das pessoas. Defendo uma tese arrojada de que o Neoliberalismo não chega ao Brasil na década de 1990, enquanto política pública. Mas chega nos anos de 1980 enquanto prática cultural, prática de poder, por meio de filmes infantis que já projetam essa mentalidade neoliberal.

Dois filmes que analiso para pensar a infância. Com um simbolismo muito grande é o ET e Poltergeist. Dois extremos. No ET analisa-se a criança sendo governada e quem está correndo atrás da infância, a Ciência, o Universo Adulto. No Poltergeist, quem sequestra a criança? A televisão. Então tem todo um simbolismo. Vou fazer um diálogo entre os dois para pensar a problemática da infância. Os processos de governamentabilidade em relação à infância.

Além de atuar na Educação, você tem um trabalho com palestras abrangendo Filosofia, Religião e Psicologia?

Quando comecei as fazer as palestras, percebi que as pessoas querem ouvir coisas práticas, ligadas à família, à educação dos filhos, ao autoconhecimento. Assim, tenho trabalhado nas minhas palestras, o que é o ego, quais são as estruturas da mente, trabalho também a questão da fé. O quanto a fé pode contribuir para o processo de cura, para superar as dificuldades. O tanto que a dor e as dificuldades forjam no individuo competências emocionais.

Viemos de uma cultura de negar a dor, o sofrimento e a dificuldade. Eu trabalho nesse sentido de mostrar que a dor, o sofrimento e a dificuldade são importantes para qualquer ser humano. A partir desses episódios que nós podemos crescer e amadurecer psicologicamente.

Vejo assim, todo mundo passa por dificuldades para alguns há dificuldades como a morte de alguém, para algumas pessoas é o fim do mundo, para outras é uma coisa tranquila. Então, é o peso da cruz da cada um.

Trabalho nas minhas palestras, em entender as dificuldades não como algo negativo. Numa linguagem religiosa como uma benção, numa linguagem psicológica como uma oportunidade de crescimento. Quando você amplia a sua visão, o seu mapa, você passa a ver a vida de outra forma e lida com ela de uma forma totalmente diferente.

Uma palestra que eu dou, está nas redes sociais, tem como tema: A Depressão, uma oportunidade de crescimento. Grandes personalidades passaram pela depressão. O que é a depressão, é o momento em que você cria uma grande ilusão, se decepciona, se frustra e vai para a realidade. Então, você tem que construir a sua realidade com coisas concretas, saudáveis, para ter uma realidade verdadeira, sustentável.

 

Texto: Leonardo Leal

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