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A vida é para valer

Em 1940 a Noruega foi invadida pela Alemanha no começo da Segunda Guerra Mundial.

Foto: Pixabay

A conquista foi rápida e visou fechar o acesso do Mar Báltico à Marinha Britânica. Como a região era de posição estratégica secundária, logo após a conquista, a maior parte das tropas alemãs foi deslocada para outros teatros de operação. No entanto, alguns poucos soldados foram mantidos no país para garantir a ocupação.

Entre esses poucos soldados estava o sargento Alfred Haase. Ele teve sorte de ser mantido longe dos fronts de batalha. Levou, durante a guerra, uma vida relativamente comum. Suas funções eram quase as de um policial. No entanto, um dia, seus olhos cruzaram com os de uma jovem norueguesa. O nome dela era Synni Lyngstad. Dois jovens no meio de uma guerra terminaram por se apaixonar. Amor proibido, pois eles estavam em lados opostos. Podiam ser acusados de traição. Mas o amor na juventude não olha para esses obstáculos. O amor, sempre ele, é mais forte do que tudo! A tudo perdoa. Tudo redime!

Mas chegou o dia em que os jovens apaixonados tiveram que se separar. A Guerra chegava ao fim e as últimas tropas alemães de ocupação foram evacuadas da Noruega. Alfred Haase não queria ir: Synni estava grávida. Mas não havia escolha. Se tentasse ficar, ou seria executado como desertor por seus colegas alemães ou seria linchado pelos noruegueses sedentos de vingança contra os invasores. Mas antes de ir, prometeu voltar. Por sua vez, Synni ficou em maus lençóis: as amantes dos alemães costumavam ser linchadas. Seus corpos, depois do apedrejamento, eram pendurados em postes com placas injuriosas. Synni, apoiada por sua mãe, se escondeu até o nascimento da pequena Frida e assim que possível, fugiram as três para a Suécia, país que se manteve neutro durante a guerra (e que por isso não alimentava ódio contra os alemães) e onde elas nunca seriam reconhecidas. De Alfred Haase só tiveram a notícia de que o navio que o transportava de volta para a Alemanha havia sido torpedeado e afundado nas geladas águas da Noruega. Foi, por elas, dado como morto.

O mais trágico de toda essa situação é que, miraculosamente, Alfred Haase escapou com vida do naufrágio. Mas Synni, já na Suécia, morreu antes que Frida fizesse dois anos de idade. Pensando que o pai de sua neta estava morto, a avó ponderou que não podia voltar com a pequena Frida para a Noruega, pois o ódio ainda era tanto que a criança podia ser assassinada apenas por ser filha de um soldado alemão.  Ficaram as duas, avó e neta, sozinhas na Suécia e lá construíram uma nova vida.

Passaram-se os anos. A poeira baixou. Alfred Haase procurou-as na Noruega, mas não conseguiu ter notícias de sua amada e da filha que não chegara a conhecer. Ninguém sabia do paradeiro das três. Triste, voltou para a Alemanha e refez a vida com uma nova família. Enquanto isso, na Suécia, a pequena Frida crescia e mostrava ter um talento imenso para a música. Era exímia cantora. Mas um casamento precipitado aos dezesseis anos quase inibe seu potencial. Ao menos desse relacionamento ficaram dois filhos (um rapaz e uma menina). Ainda jovem, se separou. Como não tinha renda, ficou sem a guarda dos filhos. Perdida, Frida se lançou na música e contra todos os prognósticos, a menina refugiada norueguesa que nunca havia conhecido o pai, que havia perdido a mãe com um ano de idade e que não conseguia sequer ter a guarda de seus filhos, viu seu talento render frutos: entrou para um grupo de música pop e se tornou uma estrela internacional. Ela é Anni-Frid Synni, a morena do conjunto ABBA. Com o sucesso recuperou a guarda de suas queridas crianças.

Pai e filha só se reencontrariam em 1977 quando o ABBA fez um show na Alemanha e a estória de Frida foi publicada nos jornais locais. Peter Haase, filho de Alfred e, portanto, meio irmão de Frida, leu a matéria e ali reconheceu a estória do pai.  Conseguiu noticiar a imprensa e assim criar as condições para o reencontro do pai com a filha. Fico imaginando o quão emocionante não deve ter sido esse reencontro.

Mas nem tudo foram flores na vida de Frida depois disso. Separou-se de seu companheiro de ABBA e o sucesso de cantora ficou no passado. Deu a volta por cima, casou-se novamente com um conde alemão e virou condessa. Teve durante a maior parte das décadas de oitenta e noventa seus anos de paz e felicidade. Mas em 1998 perdeu a filha em um acidente de carro e logo depois ficou viúva do marido que era conde.

A estória de Frida nos mostra que a vida é repleta de realidade! Nenhum sofrimento é eterno, mas nada nos garante que o futuro será feliz. Cedo ou tarde a dor e o sofrimento acabam por nos visitar. Logo, a felicidade não é um direito natural! Ninguém “merece” ser feliz. Não acreditemos nessa mentira. Temos apenas o direito de buscar a felicidade e não raro, nessa busca, trilhamos caminhos errados. De fato, a tão almejada bem-aventurança costuma a ocorrer quando menos esperamos. Quando diminuímos nossas expectativas para o futuro e simplesmente vivemos o presente.  Quando temos a consciência tranquila e conseguimos sorrir diante de nossas próprias tragédias.

A vida é para valer!

 

Texto: Pedro Hanks

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