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The pigs, the dogs and the sheeps

Em Animals, os cães são os homens da lei, os porcos representam os políticos e as ovelhas apenas seguem um líder.

 

Anderson Tissa é jornalista, publicitário e autor da coluna “Vida Longa, Baby” / Foto: Douglas Luzz

Era como um ritual. Quando estava com o pensamento embriagado, ligava meu aparelho de som 2 em 1 CCE anos 80, colocava a K-7 no tape, aumentava o volume, apagava a luz, claro, assim a viagem era mais astral, e deixava o pau torar a folha. Vez ou outra, quando visitava a locadora, acionava os recursos do videocassete e assistia Colheita Maldita ao mesmo tempo, mas sem som, porque achava que a K-7 tinha a trilha ideal para o filme.

Essas cerimônias privadas e exclusivas a minha pessoa eram raras, aconteciam quando estava sozinho em casa. Quando ocorriam, os álbuns mais tocados eram Dark Side Of The Moon, Atom Heart Mother e The Wall (dos três, o mais ouvido disparado). Não demorou para os rituais acabarem e quando foram completamente encerrados, se passaram longos anos de caretice sem praticamente ouvir Pink Floyd.

Acredito que muitos, assim como eu, que curtiam Pink Floyd nos tempos em que se fazia serenata pelo telefone fixo, provavelmente, também deram férias a turma de Roger Waters e destinaram seus ouvidos a outras bandas. Apesar do hiato de audição é inegável dizer a relevância desse grupo para a história do rock.

Por todo tempo que me afastei dos britânicos, havia um disco que me fazia voltar de quando em quando. Dentro da discografia do grupo é o único que não se tornou rotineiro para mim. Foi esse o motivo que me fez escrever sobre o disco no dia de seu aniversário. Em 23 de janeiro de 1977, o Pink Floyd lançava um álbum provocativo, contestador e duramente crítico ao estado: Animals.

David Gilmour ao vivo no At Pompeii / Foto: Matthew Eisman

Outro motivo esse sem muita importância, mas absolutamente curioso é que o álbum tem totais 41 minutos. E hoje, coincidentemente ou não, Animals completa 41 anos de seu lançamento.

Na época muitos da imprensa desceram à lenha. Acharam o álbum sinistro, escuro e triste. Mesmo sendo fundamentado no livro A Revolução dos Bichos, de George Orwell, uma das maiores obras literárias de toda a história da Grã-Bretanha, muita gente torceu o nariz. Ora bolas, o que eles queriam? Retratar os humanos como animais, vivendo numa ditadura liderada por um porco corrupto e aficionado pelo poder está muito longe do meu conceito de vale encantado. Talvez os críticos estivessem esperando um disco nada conceitual e mais para ouvintes casuais, como foram Dark Side Of The Moon e Wish You Were Here.

Roger Waters na The Wall Tour / Foto: Todd Owyoung

Ao invés de repetir a dose, a banda resolveu inovar e criou um álbum bastante diferente de tudo o que já tinha feito. O que mais curto no disco é que além do imponente cenário político-social, e da constante busca de evidenciar as desigualdades e a ganância, Animals também tem uma sonoridade linear mesmo contando com a criatividade obscura de Waters e os elementos delicados e incomuns de Gilmour. É um disco, a princípio, antes de dar play, difícil de ouvir, mas quando às primeiras notas surgem e você se envolve com o ambiente tirano e de medo, as músicas passam a nos preencher, mesmo que pouco a pouco e estranhamente, de esperança.

Creio que isso acontece por, no final, acabar aceitando e entendendo a crítica da banda e querer que todo o contexto autoritário, injusto e deturpado apresentado acabe de uma vez por todas. Nem que seja apenas por curiosidade, ou por buscar entender o processo de composição de Waters ou simplesmente por tentar curtir toda essa viagem, esse disco vale a pena ser ouvido. O período no qual foi criado, a crítica a um sistema sujo e sem princípios e o formato nada comercial são outros pontos relevantes para tirar 41 minutos do seu tempo e descobrir como alguns artistas pensavam em construir suas músicas há quatro décadas.

Em Animals, como no livro, os cães são os homens da lei, os porcos representam os políticos e as ovelhas, sem pensamento crítico, apenas seguem um líder. Qualquer comparação aos tempos atuais do Brasil é se-gu-ra-men-te uma coincidência sem qualquer fundamento.

Texto: Anderson Tissa

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