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Até no futebol a paixão tem que ter cautela e caldo de galinha!

Morei em São Paulo quase 15 anos. Uma época de ouro do futebol brasileiro. Sócrates, Casagrande, Biro-Biro, Zico, Dinamite, Leão, Luiz Pereira, Pita e inúmeros outros.

Foto: Divulgação

Como detestava tumulto de gente, ia apenas à Rua Javari ver jogos do Juventus, apelidado de Moleque Travesso. Jogava numa retranca danada contra os grandes. Quase não perdia. Roubava pontos importantes das agremiações gigantes. Era dono de um contra-ataque mortal.

Nessa ocasião, de Uberlândia jogavam no Juventus o Marquinhos, o Roberto Bombinha e o Orciano.

O Orciano desfilava como a estrela do time. Estava quase parando, contudo, muito querido pela torcida no seu talento, lisura e um pulmão de aço invejável. Nas bolas roubadas, transformava-se num corisco no ataque, explodindo de alegria as arquibancadas da Rua Javari.

Um dos diretores do Juventus era um homem muito rico. Omitirei seu nome para evitar polêmicas. Esse diretor, bastante afável, dialogava bastante comigo. Não manjava nada de bola, todavia, garantia a folha de pagamento dos atletas, quando solicitado.

Trabalhava na minha empresa, o Cláudio. Boa pessoa, todavia, torcedor fanático, doente, do Moleque Travesso. Tinha 3 filhos, bem inteligentes, recém- formados na USP. O Cláudio fazia questão de ser inimigo número um desse dirigente juventino. Atacava-o até na sua vida pessoal.

Sempre conciliador, eu puxava a orelha de meu companheiro:

– Cláudio! Você é pai de família. Tem filhos! Futebol é para fazer amigos! O homem que você desafia é poderoso. Um dia poderá prejudicá-lo.

– Que nada, Lucimar! Você que é um fraco! Engole tanto sapo que dentro de você deve haver um brejo, kkkkkk. Não tenho rabo preso com ninguém. Vou bater mais forte ainda nesse diretor burrão e amador do Juventus.

O tempo passou. E meu amigo Cláudio não aliviava. Dava entrevistas a torto e a direito denegrindo o aludido diretor juventino.

Infelizmente, o time da Mooca foi rebaixado, para o delírio do Cláudio e da oposição.

Meses depois, encontrei todo feliz o contestador Cláudio.

– Viu que sou poderoso? Derrubei o homem e vamos assumir o Juventus mês que vem.

– Parabéns, Cláudio!

– Calma, Lucimar! O melhor não é isso!

– O que é, então?

– Meus filhos, barbaramente inteligentes, vão trabalhar numa empresa sueca. Ganharão 30.000 dólares por mês, livres de qualquer despesa, e um convênio médico de primeiro mundo para toda a família.

– Parabéns, amigo!

Alguns dias depois, esse ex-diretor do Juventus e eu fomos a uma multinacional sueca. O filho desse ex-diretor era o presidente da empresa na América Latina.

Ao passarmos pela sala de recepção, vi o Cláudio, a esposa e seus filhos sentados no sofá, numa alegria sem limites. Fingi não vê-los, uma vez que seu inimigo número um estava comigo.

No luxuoso escritório do comandante maior da empresa, tomávamos um chá com torradas, quando o ex-dirigente juventino indagou a seu filho:

– O que aquele casal e seus filhos fazem na recepção?

– Não sei, pai, porque cuido de problemas mais complexos, contudo, saberei já.

Chamou a chefe dos Talentos Humanos da organização e perguntou-lhe sobre as pessoas citadas pelo pai. A moça respondeu:

– São aqueles engenheiros, doutor, aprovados, que irão para a Suécia e lá ficarão por três anos.

– Tá bom! Pode se retirar!

Aí, foi triste, amigo! O velho dirigente juventino descreveu dramaticamente ao filho tudo acontecido com ele por causa do Cláudio. Os olhos daquele pai brilhavam de ódio. Fiquei pasmo. Sabia que algo de bom não aconteceria. Naquele clima horrível, inventei um compromisso e fui embora mais cedo.

Dois meses depois, no Vallée, encontrei o Cláudio cabisbaixo. Antes de eu dizer algo, ele despejou:

– Aquele dia, Lucimar, que você estava naquela empresa sueca, o fulano de tal falou alguma coisa a meu respeito?

– Não sei, amigo! Por mim, creio que ele nem o viu. Por que essa pergunta?

– É, estranhamente, de repente, meus filhos foram comunicados que a matriz havia revogado novas contratações. Nos dispensaram friamente.

– Nossa, que ruim, né, amigo! O que fazem agora? Já que puxaram o pai na sabedoria…

– Que nada, Lucimar! Minha filha abriu uma lanchonete na praia! E os meninos trabalham descontentes numa grande construtora aqui em São Paulo. Pagam mal, amigo!

– E o Juventus? Continua lá?

– Não! Não! Não! Pediram minha cabeça e ela rolou.

Pensei comigo: “Cadê aquela arrogância? Como as atitudes de um pai ou uma mãe, mal conduzidas, podem prejudicar filhos ou netos!”.

A lei da ação e reação é infalível!

 

Texto: Lucimar César

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