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“Por favor, precisamos que nos ouça”

Leia na integra o depoimento comovente de uma jovem que vai te fazer repensar a forma de ouvir o mundo

Anderson Tissa é jornalista, publicitário e autor da coluna “Vida Longa, Baby”. / Imagem: Douglas Luzz

Há algumas décadas para criar uma de mim era preciso portar uma mídia, hoje praticamente extinta, que voltou aos holofotes após o sucesso da série 13 Reasons Why. Com uma K-7 em mãos, alguns esperavam ansiosamente suas músicas preferidas nas rádios para apertar o rec – a tecla que se diferenciava das demais por conta de sua pinta vermelha, assim como a rena Rudolph do Papai Noel. Tarefa por muitas vezes árdua. Além de ter toda a paciência com a programação das FMs e a agilidade de apertar para gravar no momento certo, era preciso também torcer para o locutor não falar sobre a canção e a vinheta entrar bem no final da música. Incontáveis foram as vezes em que se perdeu a gravação “perfeita”.

Outra maneira, esta bem menos penosa mas ao mesmo tempo difícil por nem sempre conseguir emprestado, era solicitar algumas dezenas de K-7 e LPs com amigos, selecionar as prediletas e gravar. E tinha também uma turma que se dirigia às lojas especializadas ou até mesmo às próprias rádios e pagavam a um “profissional” terceiro que se encarregava de selecionar e gravar as canções na K-7 do cliente.

Logo veio o CD. E com os PCs, os gravadores de CD. Nessa época se produzia milhares de outras assim como eu. Se fazia a rodo. Mas também não demorou para a acabar, bastou piscar os olhos e o MP3 se popularizou, tornando os minúsculos pen drives os bola da vez. E mesmo com a praticamente extinção do CD, não se assuste caso ainda veja pelas ruas um sujeito pedir a um locutor um CD com “as mió músicas da rádia”.

Atualmente, com as plataformas de streaming, criar uma de nós é mais fácil que pão. Existem de todos os tipos, mais longas, bem curtas e até com todos os estilos misturados. Algumas possuem uns nomes mais comuns, outras soam mais esquisitas como Para Arrastar o Cu na Brita ou As 30 e Poucas Mais Tocadas na Zona, ambas criadas pelo mesmo cara que me criou.

Sou bem jovem, na verdade acabei de nascer. Fui batizada com o nome de Tirando a Poeira dos Tímpanos 3. Espero não seguir o destino das trilogias do cinema e ser considerada a pior entre as minhas duas outras irmãs. Vim para este mundo por meio do Deezer, porém logo logo ganharei um clone no Spotify, para torcer o nariz dos mais convencionais e tentar convencê-los de ouvir o que há de novo no rock. E não tem somente banda nova não, nessa terceira versão, tem gente consagrada com música inédita. Tem música do Zorro e do Coringa (duvido que saiba quem são eles). Tem indie, stoner e banda nacional.

E saiba você que fui criada em questão de minutos.

A verdade é que hoje é muito mais fácil fazer uma de nós. E mais barato. Nem vou comentar a quantidade de bandas e músicas que estão disponíveis para você nos criar e curtir com seus amigos, parentes e crushs. Porém, apesar de ter uma infinidade de conteúdo ao seu alcance, me parece que você ainda prefere o processo antigo, o mais difícil e mais caro. É complicado para mim, e também para as outras, entender seu comportamento. Quanto mais difícil, mais você se interessa. Saiba de uma coisa: temos mais utilidade do que imagina.

A essa altura você já sabe o que eu sou. Sou uma playlist, uma playlist de rock. E lhe peço encarecidamente, em nome de todas as outras, que simplesmente, nos ouça.

 

Texto: Anderson Tissa
Revisão: Pedro Ivo

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