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Amarildo Maciel fala sobre o jornalismo no rádio e na TV em Uberlândia

Apresentador do “Minas Urgente” na Rede Band, Amarildo Maciel tem mais de 35 anos no jornalismo, com passagens pelo rádio e pela TV. Em entrevista a O JORNAL de Uberlândia, ele fala do início da carreira na cobertura de esportes para o rádio e a transição para os assuntos da cidade que impactam diretamente a vida da população.

Na reportagem, Amarildo destaca a matéria de um avião feito em Uberlândia e as entrevistas com Tancredo Neves e o astro de futebol Pelé. Relembra que, nos idos de 1985, acompanhava os acontecimentos de Uberlândia a partir do setor central, e que naquela época não havia as facilidades de comunicação de hoje. Confira abaixo.

Foto: Leonardo Leal

Você tem conseguido fazer um jornalismo voltado para as demandas da cidade; a que atribui esse bom resultado?

Eu faço o rádio na televisão. Trouxe minha experiência do rádio para a TV, também a boa memória dos problemas da cidade, que acredito conhecer. Por conhecer os problemas, procurei trazer aquele rádio prestador de serviços para a televisão que a gente faz atualmente. Hoje, com o advento do Whatsapp, as pessoas enviam fotos e pautas, vamos atrás. Na última segunda (29), logo após apresentar o programa, corri até a prefeitura para falar com o prefeito sobre respostas de demandas do dia a dia do “Minas Urgente”.

Hoje o chamado “talk show” é o caminho, mas, não se pode cair no ridículo de ser a mesma samambaia da garagem todo dia. É preciso ter a credibilidade do público, dar resposta a ele. Com a invenção do controle remoto, não agradou, mudou.

 

Como é fazer um jornalismo crítico em uma sociedade conservadora?

Este é o problema nosso: o bairrismo regional. Apresento um programa que fala para 105 cidades. Agora, você imagina se eu falo uma coisa que agrada Uberlândia e desagrada Uberaba – porque a transmissão é simultânea para as cidades. E se quero agradar Uberaba, desagrado Uberlândia, Patos, Patrocínio, Ituiutaba, Unaí, Paracatu, Passos, Araxá. Cidades-polos. Tem-se que andar sobre casca de ovos todos os dias.

Antes de ficar nervoso e fazer um comentário mais pesado é preciso parar e pensar. Por exemplo, por que vou defender um aeroporto internacional em Uberaba e esquecer Uberlândia? Por que os dois não dividem o faturamento? Uberaba deu rasteira na gente. E quanto tempo Uberlândia deu rasteira em Uberaba? Então é preciso pensar nesse crescimento regional. Não adianta só Uberlândia crescer, têm ônus e bônus. A cidade cresce e vêm os problemas.  Uberaba ficou para trás. Será que ficou? A qualidade de vida lá é melhor que a nossa, tem menos invasões, menos favela, menos gente passando fome.

Agora, vem um aeroporto para lá, isso vai aumentar o que para eles? Imagino que só receita. Porque, aonde vai um aeroporto não vai população carente, é uma população de consumo. Aí se esquece de Ituiutaba, que está no Pontal. Aí deixo de ouvir Patrocínio, Patos, Unaí, onde o Erivelton Rodrigues está, correspondente nosso. Paracatu, que é uma cidade muito sofrida. Então, é preciso ter cuidado com o que fala, porque depois que vai, não tem jeito de buscar. Também cobrar dos políticos. É por isso que estou pedindo, vamos votar num ladrão não reincidente. Ladrão tem demais na política. Ladrão de sonho, de frustrações, pega nosso dinheiro, vão construir para eles; para nós, nada.

 

Como você vê Uberlândia hoje? O que falta para a cidade ser melhor?

Planejamento. Uberlândia cresceu sem planejar. Tivemos um prefeito que pensava muito no futuro, o Virgílio Galassi. Ele deixou muita coisa desenhada, e hoje estamos contemplando a Avenida João Naves de Ávila, a Anselmo Alves dos Santos. O estádio municipal que ele projetou, quem imaginaria que estaria servindo até hoje?

O aeroporto internacional que nós perdemos, ele queria aqui em Uberlândia, não deu certo entre ele e o colega dele, o Paulo Ferolla. Era para ser nas terras do Ferolla, que não quis aceitar desapropriação.

Acho que nós precisamos de liderança. Para termos essas lideranças, temos que pensar muito em projetos, não em política pessoal, não política partidária. Ultimamente, tempos pensado muito em política partidária e esquecido a política social e de planejamento.

Nessa conversa que tive com o prefeito, ele me mostrou três segmentos de terminais que estão sendo licitados agora. Perguntei se vai executar e ele disse que [sim] na atual administração. “E o dinheiro?” – perguntei. Ele respondeu: “Eu vou atrás”. Isso é bom, será que vai dar conta, ou vai deixar mais um elefante branco aí pra frente?

O dinheiro público tem que ser tratado com o maior respeito, é um dinheiro de todos nós. É preciso saber muito bem o que fazer com o dinheiro público. Infelizmente, os nossos políticos não têm pensado nisso, não, só têm pensado no deles. Vamos escolher quem administra ele melhor para nós.

 

Em relação às eleições de outubro, como você avalia os nossos representantes?

Está muito a desejar, muito aquém. Estou vendo muita festa com pouco tempero. Tem muita gente fazendo festa em torno dos outros, muita propagando política pessoal, que sou contra. Esse dinheiro de propaganda deveria ser investido no social, em ajudar uma creche, adotar uma instituição séria. A gente tem que refletir muito, o que eles têm falado e feito.

 

Sua carreira no jornalismo começou no rádio? Conte um pouco dessa história.

Eu comecei a convite do Odival Ferreira, do Ettore Braia e do Severino Izael. Naquela época, era supervisor do Moinho de Trigo, jogava bola lá e supervisionava o time infanto-juvenil. Em 1982, eles precisavam de um repórter para acompanhar o XV de Novembro. Como eu entendia do assunto, eu fui ser o que hoje se chama estagiário; na época era “foca”.

Minha carreira como radialista/repórter esportivo começou em 1982. Até hoje só trabalhei no rádio e na TV, nunca gostei do escrito. Comecei fazendo cobertura do XV de Novembro. Eu cobria pela Rádio Uberlândia e o Neivaldo Silva (Magoo), pela Rádio Visão.

Depois, ficou sem repórter para o Uberlândia Esporte, o Odival me levou para fazer a cobertura do Uberlândia Esporte. Fiquei 17 anos consecutivos como repórter setorista do Uberlândia Esporte. Conheço um pouco da história do Uberlândia.

Da Rádio Uberlândia, fui para a Rádio Educadora, onde fiquei por dois a três anos, e depois fui para a Rádio Super Cultura em 1984. Fui ser repórter da Terezinha Ribeiro, mãe do Maurício Ricardo. Ela e o Vander Rocha tinham um programa de manhã, depois entrou o Misac Lacerda e a Raquel Diniz à tarde com um programa chamado “Balancê”. Fui o primeiro repórter deles em 1985.

 

A cobertura dos assuntos era diferente naquele período?

Na época, eu ficava no centro da cidade, eles avisavam pelo bip, eu ligava na rádio e recebia a pauta para ir na Prefeitura ou em uma das secretarias para acompanhar o que estava acontecendo. Era assim no dia a dia, não tinha essas facilidades que têm hoje. Foi onde eu aprendi jornalismo, apaixonei pelo rádio e em 1986 fui trabalhar em produtora de vídeo. Trabalhei pela Close um bom tempo. Colocamos no ar um programa chamado “ShopLar”. Daí que surgiu o “ShopCar”, era antes da “Shopcar” pela TV Paranaíba. Eu e o Olívio Calábria, pela Close, com o Celso Machado e a Rosilei. Gostei de televisão, foi onde entrei na TV. Depois fui para a então TV Manchete, trabalhei um bom tempo com o Ney Junqueira. A Manchete hoje é a Band, o canal em que estou.

Um tempo depois voltei para o rádio e fui trabalhar na TV Vitoriosa, fazer o programa “Chumbo Grosso”. Lá, fiquei nove anos. Oito anos como apresentador do “Linha Dura”. Não deu certo por divergências políticas, foi ótimo para mim. Fiquei um ano desempregado, a Band precisava de alguém, estou aqui há cinco anos.

 

Quais reportagens que te marcaram na sua carreira no jornalismo?

Fiz uma matéria de um avião fabricado em Uberlândia, o Astro, um avião pulverizador que era feito pela Constrular. Na época, nós emplacamos cinco minutos no jornal de domingo da Manchete. Eu, o piloto e meu filho, mostrando o avião no trajeto entre Uberlândia e Araguari. Foi uma matéria muito bonita. A fábrica se chama ASA, ainda tem até hoje em Araguari. Uma fábrica de pequeno porte.

Entrevistei muitos políticos na minha carreira. Conheço quase todos os campos de futebol do Brasil, como repórter, acompanhando o Uberlândia Esporte.  Entrevistei muita gente de renome.

Falei com o Pelé, com o Tancredo Neves. Uma vez eu estava entrevistando o Tancredo – era uma exclusiva durante as “Diretas Já” –, entrou um político e escritor aqui de Uberlândia e me tomou o gravador; ele sempre foi candidato a vereador, prefeito e nunca ganhou nada.

 

Nesses 35 anos de jornalismo, qual o balanço que você faz de sua carreira?

Até os 40 eu tinha vaidade, depois dos 40 quis juntar dinheiro, agora preciso é de saúde. Contrai um H1N1 que virou uma dupla pneumonia, fiquei 18 dias no hospital, 20% de possibilidade de sobreviver, e dois anos lutando contra uma briga de pulmão. Estou vivo! Fui avô recentemente, estou muito feliz, apesar da questão da saúde. Profissionalmente estou realizado, apaixonado por moto e pela minha mulher.

 

Texto: Leonardo Leal

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