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Baú de memórias

Foto: Marcelo Felice

 

Minha mente é um baú, guardado num sótão escuro

E meu coração é uma planta, esquecida num canto de muro…

Às vezes revolvo as memórias, daquele baú tão repleto

E a poeira assentada no tempo, aduba a planta quase por completo…

 

Nessas ocasiões a alma se nutre do adubo que foi à planta

São tantas as felicidades, que mesmo as maiores angústias, esse momento suplanta!

Mas aflições são meu maior legado e a dicotomia, então, se completa

Pois junto do BEM tão guardado, jaz um MAL dissimulado e esteta

 

Eu tenho em minh’alma uma história de muita pureza e memória

De que fui protagonista um dia

Uma lembrança tão ingênua e tão doce, que por mais criança que fosse

Jamais eu a inventaria

Eu trago em meu peito um amor, sincero, inocente, pujante,

Tão deveras impressionante

Que ainda hoje sobrevive, embora de dor agonize

Pela insensatez alucinante

 

O baú no sótão escuro é mais que um esquife, é um cofre

Onde jaz a minha inocência e a minha metade que sofre

É onde deposito as lembranças mais lindas

Na vã tentativa de não vê-las findas

E onde enclausuro, a milhares de chaves,

Ocultas, debaixo de entraves

As dores e o marco profundo

De um grande mal aprendido no mundo

O encantamento que me foi tirado

De um amor tão inocente e imaculado

Corrompido por ter se largado

Tão profundamente, sem nenhum cuidado

A quem só o tornou depravado, pervertido e desonrado

E fez dele um ato libertino; lascivo, impudico e despudorado…

 

O meu baú de memórias é um amontoado de histórias

Embrulhadas num velho pano…

Está entre o sagrado e o profano;

Tantas perdas…

Tantas glórias…

E na imensidão de um segundo

Me dou conta de que perdi para o mundo

Tantos sonhos em que acreditava

Toda a ingenuidade que em mim se notava…

 

O meu baú de verdades contém as histórias que a memória mente

Uma mente de memórias onde a história é indecente

Em que crenças e valores se perderam em meio às cores

De um mundo de mentiras,

De esperanças depositadas e decepções alziras

 

As lembranças que ali deposito, guardo-as para o infinito

Pois que registros relevantes, orgulhos, conquistas, pudores,

Sentimentos abrasadores

E o meu amor mais bonito

Por aquela que na turbulência

Me tomou a inocência

Em atos tão vis e malditos…

 

Minha mente é um baú, que contém minha mais pura essência

Nos seus recônditos se vislumbra a minha perdida inocência

Que nada fará tornar…

O baú já foi fechado.

O sótão está lacrado.

Em meu peito tão marcado há uma planta num canto de muro…

E um universo a borbulhar…

 

Obs.:
* Esteta – pessoa que aprecia e pratica o belo como valor essencial (do grego “aisthetés, “aquilo que sente”);
** Alzira – do árabe Al zaira, “a visitadora” ou “mulher que alimenta intenso desejo pelo sexo oposto”

 

Texto: Marcelo Felice

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