Expresso Nacional

Beija-Flor é campeã do Carnaval do Rio com desfile politizado

No Carnaval dos protestos, a Beija-Flor veio para chocar com um desfile de tom político e conquistou o título deste ano do Grupo Especial do Carnaval do Rio nesta quarta-feira (14). Tuiutí e Salgueiro ficaram em segundo e terceiro lugar, respectivamente.

Foto: Gilson Borba/Photo Press/Folhapress

Nas palavras do pesquisador de Carnaval Fabio Fabato, a escola colocou na avenida um desfile na linha “contra tudo o que está aí”. Havia fantasias criticando impostos altos, uma alegoria representando a Petrobras, ratos em referência a políticos e encenações da rotina de violência no Rio, com representações de crianças em caixões e mães chorando por seus filhos policiais mortos.

Neguinho da Beija-Flor, lendário puxador de samba da escola, comemorou a conquista dizendo que o título se justifica pela “crítica ao que está acontecendo no país, poucos com muito e muitos com pouco”, disse.

A agremiação de Nilópolis fez sucesso com o público, que seguiu cantando o samba após o fim do desfile e chegou a receber até aplausos de um grupo de jurados, com um enredo que teceu críticas à corrupção no Brasil.

Com o título, a Beija-Flor repete feito de 2003, quando fez um Carnaval em homenagem ao então presidente Lula, que acabara de assumir. Foi o último desfile de tom político no Rio de Janeiro. A passagem da escola pela Marquês de Sapucaí foi um desfile-manifesto. Um dos carros, que teve como tema o “caos social” no Brasil, apresentou a estátua de um pedinte bêbado e presidiários com telefones celulares.

Este ano, a Sapucaí foi marcada por desfiles de forte cunho político. A Paraíso doTuiutí lembrou os 130 anos da Lei Áurea (1888), questionando se a escravidão foi, de fato, extinta no Brasil. Para tentar responder essa pergunta, a pequena escola do Rio de Janeiro criticou o presidente Michel Temer, as reformas trabalhista e da Previdência e a exploração do trabalho.

A comissão de frente, talvez a mais marcante do Carnaval, trazia uma coreografia de escravos amordaçados trazidos da África se transformando em sábios pretos-velhos com poder de cura.

O último carro do desfile trouxe um destaque fantasiado do presidente Michel Temer (MDB) como “vampiro neoliberalista”. A ala Manifestoches tinha componentes fantasiados de patos, sugerindo que manifestantes foram fantoches em protestos políticos.
Outra ala lembrava do trabalho informal, numa referência explícita à reforma trabalhista.

Com tudo isso, a Paraíso do Tuiutí conquistou o segundo lugar na disputa, colocação que poderia ser considerada surpreendente para a escola que entrou no Grupo Especial no ano passado, quando ficou em 12º lugar. Naquele ano, o último carro alegórico da escola perdeu o controle ao entrar na Sapucaí e prensou 19 pessoas, uma delas morreu.

O terceiro lugar neste ano ficou com a Salgueiro, que exaltou as mulheres negras.​

HISTÓRIA
A história do Carnaval carioca é mais marcada por enredos positivos do que críticos. Durante a ditadura, muitas escolas fizeram enredos chapa-branca, principalmente a Beija-Flor. No entanto, há exemplos antológicos de desfiles que marcaram, apesar de não terem ganhado.

No Carnaval de 1989, a mesma Beija-Flor, à época com o carnavalesco Joãosinho Trinta, levou para a avenida o enredo “Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia”, que mostrava mendigos, bêbados e menores carentes do Brasil. A imagem que mais marcaria seria o carro com a imagem de um Cristo encravado numa favela. Censurado pela Cúria Metropolitana do Rio, Joãozinho cobriu o Cristo com sacos de lixo preto e desfilou-o do mesmo jeito, com um cartaz pendurado no peito: “Mesmo proibido, olhai por nós”.

Quando já se via a democracia no fim do túnel, a Caprichosos de Pilares levou para a avenida, em 1985, E por falar em saudade, cujo samba lembrava a época em que o país tinha eleições diretas.

Nas décadas seguintes, esses temas perderam protagonismo para patrocínios milionários. Viu-se os chamados enredos CEP, em homenagens a cidades, Estados e países -inclusive ditatoriais (Beija-Flor, 2015)-, “homenagens a revistas de fofoca (Salgueiro, 2013) e até uma marca de iogurte (Porto da Pedra, 2012).

Mas nos últimos dois anos, críticas sociais e políticas vêm voltando à avenida nos últimos Carnavais.
Há algumas possíveis explicações para essa retomada. A falta de patrocínio privado libera as escolas para fazerem enredos mais autorais. O Carnaval de avenida tem perdido a atenção dos foliões para o de rua, por isso as escolas tentam retomar diálogo com a população, com temas presentes no dia-a-dia dela. Também há a própria gravidade da crise por que passa o país, que torna o assunto inevitável.

SEM PATROCÍNIO
Para o pesquisador de Carnaval Luiz Antonio Simas, o fato de este Carnaval ter trazido muitas críticas políticas não necessariamente representa uma tendência. Para ele, o fenômeno está mais ligado à dificuldade que escolas tiveram de obter patrocínio neste ano, o que as libera para falar do que querem.

“Garanto que escolas que fizeram enredos críticos neste ano podem, no ano que vem, vir com os temas mais alienados do mundo.”
Segundo ele, enredos engajados não costumam ganhar mais porque, historicamente, foram feitos por escolas pequenas, como Caprichosos de Pilares e São Clemente.

Ele avalia que, com tantas referências ao mundo real, as escolas neste ano conseguiram romper a “bolha” do Carnaval e dialogar, de fato, com a sociedade, algo que não se via há tempos.

 

Texto: Folhapress

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