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Mundo virtual

Acredito que posso falar em nome de parte significativa da minha geração, que viu surgir os primeiros computadores. Fui enviado pelo Ministério das Relações Exteriores, como funcionário do Departamento de Documentação e Comunicação, para fazer parte da primeira turma de um curso de média duração na área de informática, em 1976, na Universidade de Brasília – UnB, onde na parte da manhã era aluno no curso de Administração.

Hélio Mendes é professor e consultor de Planejamento Estratégico e Gestão. Foto: Divulgação

Não estou saudosista, apenas fazendo um marco, para uma reflexão sobre o que acontece hoje. Aquela foi a primeira iniciativa do ministério. O ministro Paulo Augusto Cotrim, que respondia pelo departamento, queria ser pioneiro na implantação de um sistema informatizado. Na época apenas as grandes empresas podiam fazer esse tipo de investimento. Ter um CPD, um Centro de Processamentos de Dados, requeria um grande investimento e uma mão de obra especializada (a era dos grandes computadores, na IBM era o 370), além do espaço físico, no mínimo uma sala de 100 m², com toda sua estrutura de ar condicionado e piso especial.

O mais difícil era ficar dentro de um CPD. A temperatura ambiente era para atender às máquinas, e não às pessoas. Chegávamos a usar luvas e gorro para suportar o frio. Quando saíamos da sala, era aquele choque térmico nada agradável. Mas havia algo interessante: quem trabalhava nessa área era considerado gênio, até o modo de se vestir e de falar era diferente. Duas palavras-chaves: hardware e software, só quem era da área entendia o novo vocabulário.

Trinta e nove anos se passaram, o que era apenas para algumas empresas se popularizou. Que bom, hoje não dá mais para viver sem uma tecnologia que, no meio do século passado, fazia parte de filmes de ficção. A tecnologia está mudando muita coisa, e vai mudar muito mais A questão é que o ponto central, o descobridor e usuário deste novo mundo, “o virtual” – o ser humano – não tem crescido no mesmo ritmo. Em alguns aspectos, na minha avaliação, piorou muito.

A ordem de importância na família mudou, antes tudo começava pelo idoso; hoje, pelos mais novos, os netos. Na escola, em todos os níveis, os professores, que antes eram chamados de mestres, os quais se dedicam a tarefa considerada nobre, a de ensinar, são frequentemente ameaçados em sala de aula pelos alunos – e até pelos pais. Em muitos casos a explicação está na “falta de berço”, ou seja, de abraço, de carinho e de bom exemplo. Hoje querem educar por meio de leis, e não de atitude. E a maioria das novas práticas é sentimental e de um efeito pouco saudável, porque não tem embasamento na cultura. Em alguns casos, são exceções que passam a ser regras.

Acredito e desejo que o mundo virtual deva continuar com a sua contribuição, mas isso requer muito cuidado. Colocá-lo sem uma grande reflexão como determinante do mundo real é pôr em cheque os valores que foram construídos e cultivados, até com sofrimento, durante séculos. É relativamente fácil navegar criticando, destruindo muitos pela rede. O difícil é ter inteligência e serenidade para preservar e avançar na história. Muitos que se habilitam hoje como protagonistas de mudanças são pseudo pioneiros, apenas se assemelham às lideranças do passado. Têm medo da própria sombra.

 

Texto: Hélio Mendes
Consultor e Prof. e Consultor de Planejamento Estratégico e Gestão
latino@institutolatino.com.br

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