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Street Art Brasileira na Europa

A arte brasileira é levada muito a sério no exterior. São inúmeros os músicos, artistas visuais e escritores que têm sido referência no cenário mundial. Esse também é o caso da nossa STREET ART. Originada do grafite, essa criativa forma de expressão agora ganha espaço nos museus e galerias de arte tornando-se, portanto, institucionalizada no movimento artístico contemporâneo.

Foto: G. Paiva

Andando pelas ruas geladas da capital francesa, ou em Berlim, Londres e Barcelona, pode-se observar os trabalhos coloridos e vibrantes de artistas de diversas partes do planeta contrastando com a paisagem cinza do inverno europeu. Nestes mesmos contextos urbanos, conseguimos encontrar essas pinturas expostas também em paredes e em imensos painéis dentro de instituições que promovem e comercializam objetos de arte.

E foi neste cenário que conheci um pouco mais do segmento.  Num bate-papo empolgante, em um daqueles cafés aconchegantes de Paris, a Geógrafa Patrícia Ponte me inseriu um pouco mais neste universo riquíssimo do grafite e da Street Art. Universo este no qual o Brasil está muito bem representado por seus artistas nos mais conceituados centros de referência mundiais.

Pesquisadora em Geografia Urbana pela Universidade Federal da Bahia, Patrícia realiza o Doutorado Sanduíche, pela Capes, na Université Sorbonne-Paris 4. A pesquisadora desenvolve sua tese sobre o grafite na cidade de São Paulo. A fim de traçar um paralelo com os trabalhos produzidos em capitais europeias, ela me contou que realizou um tour guiado em diversas dessas cidades. Participou ainda de entrevistas e eventos, observando sempre as pinturas para entender a cena do grafite no contexto mundial.

Foto: Patrícia Ponte

Entre um croissant e um café, Patrícia me explicava de que maneira a geografia pode entender o grafite como um processo de criação da paisagem urbana. Em suas palavras, os processos de criação espacial, de acordo com o pesquisador Armand Frémont, são caracterizados pela ação e vivência que as pessoas desenvolvem com os espaços que habitam. O grafite não só transforma paisagens, mas cria novas relações das pessoas com os lugares.

Foto: Patrícia Ponte

Sobre as polêmicas em torno dessa expressão nas ruas, Ponte me mostrou que, na legislação, o grafite é considerado uma forma de arte desde que tenha o consentimento do dono do imóvel ou responsável pelo bem público.

Em Paris, por exemplo, diversos bairros e zonas urbanas, os chamados Arrondissements, possuem políticas pró-grafites. Tais espaços possuem os chamados Grandes Murais artísticos. Como podemos encontrar nos muros dos arrondissements 13 e 19 e em Belleville, para citar apenas alguns exemplos de lugares destinados a essa forma de arte.

Foto: Patrícia Ponte

Patrícia faz sua pesquisa em locais variados. De São Paulo a Paris, passando por diversas capitais europeias, como as já mencionadas anteriormente, entrevistou várias pessoas. Ela relatou que dentre alguns entrevistados, moradores das periferias das cidades, ouviu-se muito que o grafite trouxe beleza e arte para o bairro onde moram. As pessoas ficaram mais felizes e se sentiam mais valorizadas.

São Paulo é hoje considerada a capital brasileira do grafite e uma das capitais mundiais do segmento. É um nome muito forte na Europa. Diversos artistas como Alex Senna e Tinho fazem excursões com seus trabalhos por muitos lugares referenciais dessa arte como Londres, Barcelona, Berlim. E os veteranos OSGEMEOS, como se autodenominam Gustavo e Otávio Pandolfo, são expoentes no Brasil e lá fora e ainda muito respeitados pelos artistas atuais.

Foto: Patrícia Ponte

O grafite transforma as paisagens e não apenas em seus aspectos visíveis, mas também nos invisíveis.

A força da Street Art, institucionalizada com exposições em museus em diversas capitais mundiais, significa que o público também se transformou. É uma forma de expressão, hoje, tão valorizada quanto os tradicionais quadros feitos a óleo, esculturas ou demais artes visuais expostas para a apreciação, contemplação e engajamento dos mais variados gostos e contextos artísticos e culturais.

Foto: Patrícia Ponte

Depois dessa deliciosa conversa com Patrícia Ponte tornou-se impossível não reparar os grafites nas ruas com um olhar renovado. Ao observar as nuances dos detalhes dos traços e das mensagens que eles nos passam, consigo entender porque essa expressão urbana já ganhou as academias de Belas Artes e ciências humanas. E caminhando pelas ruas de Belleville compreendo também o sentido daquela velha canção que nos diz que “todo artista deve ir aonde o povo está”.

 

Texto: Juliana Schroden

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